AFETIVIDADE   E   EUCARISTIA

 

 

Afetividade não implica só a capacidade de amar, mas também nossa forma de amar como seres sexuados, dotados de emoções, corpo e paixões. No cristianismo falamos muito sobre o amor, porém temos que amar como pessoas que somos, sexuadas, cheios de desejos, de fortes emoções e da necessidade de tocar e estar próximo do outro.

Estranha que não nos sintamos muito a vontade para falar disto, porque o cristianismo é a mais corporal das religiões. Cremos que Deus criou estes corpos e disse que eram muito bons. Deus, Ele próprio se fez corporal no meio de nós, um ser humano como nós.. Jesus nos deu o sacramento de seu corpo e prometeu a ressurreição de nossos corpos. De maneira que deveríamos nos sentir em casa e à vontade nesta nossa natureza corporal, apaixonada... e serenos ao falar de afetividade! Mas, muitas vezes quando a Igreja fala disto, não nos convencemos. Não temos muita autoridade quando falamos de sexo! Talvez Deus se encarnou em Jesus Cristo, mas nós ainda estamos aprendendo a encarnar-nos em nosso próprio corpo. Temos que baixar das nuvens!

Numa ocasião em que São João Crisóstomo estava pregando sobre sexo notou que alguns ficavam vermelhos e se indignou: “Porque vos envergonhais? È que isso não é puro? Comportais-vos como hereges.” (12ª homilia no Eph aos Colossenses) Pensar que o sexo é repulsivo é um fracasso da autentica castidade e, segundo nada menos que Santo Tomás de Aquino, um defeito moral!(II,II,142.1). Temos que aprender a amar os seres sexuados e apaixonados – as vezes um pouco desordenados – que somos, ou não teremos nada que dizer sobre Deus, que é amor.

Quero falar da Última Ceia e a sexualidade. Pode que isso pareça um pouco estranho, mas pensemos nisto por algum momento. As palavras centrais da Ultima Ceia foram “Este é meu corpo e o dou a vocês”. A Eucaristia, como o sexo, se centram no dar o corpo. Damos-nos conta que a 1ª Carta de Paulo aos Corintios se move entre dois temas: a sexualidade e a Eucaristia? E é assim porque Paulo sabe que necessitamos entender uma à luz da outra. Compreendemos a Eucaristia à luz da sexualidade e a sexualidade à luz da Eucaristia.

Para nossa sociedade é muito difícil entender isto porque tendemos a ver nossos corpos simplesmente como objetos que nos pertencem. Há poucos dias vi um livro que se intitulava: “Homem: todos os modelos, formas, tamanhos e cores. Manual de usuário Haynes para proprietários. (Haynes é a impressora de uma série de manuais de todas as marcas de carros)” Era o tipo de manual que te dão com um carro ou uma lavadora. Se pensas em teu corpo desta maneira, como algo talvez importante que te pertence junto com outras coisas, então os atos sexuais não serão especialmente significativos. Posso usar como bem entendo as minhas coisas contanto que não faça mal a ninguém. Posso usar minha lavadora para misturar pintura ou para fazer pastéis... É minha... E conforme isso, porque não posso fazer o que quero com meu corpo? Esta é nossa forma natural de pensar porque a partir do séc.XVII absolutizamos bastante os direitos dos proprietários. Ser humano é possuir.

Mas a Última Ceia aponta para uma tradição mais antiga e mais sábia. O corpo não é simplesmente uma coisa que possuo, sou eu, é meu ser recebido como presente de meus pais, e de seus pais antes deles, e em última instancia de Deus. Por isso quando Jesus disse ‘Este é meu corpo eu o entrego a vocês’, não está dispondo de algo que lhe pertence, está passando aos demais o dom que Ele é. Seu ser é um dom do Pai que Ele está transmitindo.

A relação sexual está chamada a ser uma forma de viver esta entrega de si mesmo. Aqui estou, e me entrego a ti, com tudo o que sou agora e sempre. Então a Eucaristia nos ajuda a entender o que significa sermos seres sexuais e nossa sexualidade nos ajuda a compreender a Eucaristia. Geralmente se vê a ética sexual cristã como restritiva comparada com os costumes contemporâneos. A Igreja te diz exatamente o que não te é permitido fazer! Na realidade a base da ética cristã é a aprendizagem de como viver relações de entrega mutuas.

A última ceia foi um momento de crise inevitável no amor de Jesus por seus discípulos. Este foi o momento pelo qual teve que passar em seu caminho entre o nascimento e a ressurreição, o momento em que tudo descambou. Foi vendido por um de seus amigos; a rocha, Pedro, estava a ponto de negá-lo, e a maioria de seus discípulos sairia correndo. Como de costume, foram as mulheres que ficaram tranqüilas e o acompanharam até o final! Jesus na última ceia não fugiu da crise, mas agarrou o boi pelos chifres. Tomou a traição, o fracasso do amor e o transformou em um momento de doação: ‘Me entrego a vocês. Vocês me entregarão aos romanos para que me matem. Entregais-me a morte, mas eu faço deste momento um momento de doação, agora e para sempre.’

Chegar a ser gente madura, que ama, significa que nos encontraremos com estas crises inevitáveis, em que parece que o mundo se acaba. Isto acontece de forma traumática quando somos adolescentes, e pode ocorrer durante toda vida, tanto se casamos como se nos tornamos religiosos ou sacerdotes.  Com freqüência este tipo de crise surge cinco ou seis anos depois de assumir o compromisso de matrimonio ou de sacerdócio. Temos que enfrenta-las.

Jesus poderia ter fugido, saindo pela porta dos fundos. Poderia ter mandado os discípulos embora e não ter nada mais que ver com eles. Mas não, Ele enfrentou o momento com fé. E só poderemos ajudar aos jovens a enfrentar estes momentos se nós mesmos, ao passar por eles, os enfrentamos. ‘Pessoalmente o fiz! Lembro que, uns anos depois de ordenado, me apaixonei fortemente por alguém. Pela primeira vez estava diante de alguém com quem, encantado, me casaria e que sentia o mesmo por mim. Aí estava o momento da escolha. Eu havia feito profissão solene com alegria, amava meus irmãos e irmãs dominicanas, amava a missão da ordem. Porém quando fiz a profissão tinha pequenas fantasias na cabeça: ‘Pergunto-me como seria estar casado’.

Neste momento tive que aceitar a escolha feita em minha profissão solene, ou melhor, teria que aceitar a eleição que Deus fez por mim, de que esta era a vida a que Deus me chamava. Foi um momento doloroso, mas também um tempo de felicidade. Era muito feliz porque amava a esta pessoa e seguimos bons amigos. Era um momento de felicidade porque me libertava da fantasia que mantive viva na minha profissão. Pouco a pouco estava descendo das nuvens. Meu coração e minha mente teriam que encarnar-se na pessoa que sou, com a vida que Deus escolheu para mim, em carne e osso. A crise me fez colocar os pés no chão.

Para a maioria de nós isto não acontece só uma vez. Podemos atravessar várias crises de afetividade durante a nossa vida. Pessoalmente já passei por várias e não sei o que me espera na volta da esquina. Mas teremos que enfrenta-las como fez Jesus na Ultima Ceia, com coragem e confiança. E na medida em que o fazemos vamos entrando pouco a pouco em nosso mundo real de carne e osso. 

Um beneditino irlandês chamado Mark Patick Hederman escreveu: ‘O amor é o único ímpeto  suficientemente  transbordante para forçar-nos abandonar o confortável refúgio de nossa bem armada individualidade, despojar-nos da impenetrável concha de auto-suficiência, e sair engatinhando desnudos para a zona de perigo que está mais alem, o ponto purificador onde a individualidade é purificada para fazer-se pessoa' 2  E se não acreditam em um beneditino irlandês, certamente acreditais em Santo Tomas de Aquino: ‘A pessoa que ama  deve portanto afrouxar este cerco que a mantinha dentro de seus próprios limites. Por esta razão se diz que o amor derrete corações: o que está derretido já não está dentro de seus próprios limites, muito ao contrário do que ocorre neste estado que é a dureza de coração’3. Só o amor rompe nossa dureza de coração e nos dá um coração de carne.

Abrir-se ao amor é muito perigoso. A gente pode se machucar. A Ultima Ceia é a história do amor arriscado. É por isso que Jesus morreu, porque amou. Despertar-se-ão desejos e paixões profundas e desconcertantes, corremos perigo de arruinar a própria vocação ou de viver uma vida dupla. Necessitaremos da graça para evitar os perigos, mas não abrir-se ao amor é ainda mais perigoso, é mortal. Diz C.S. Lewis: ‘Amar em qualquer caso é ser vulnerável. Ama algo e teu coração certamente estará partido e possivelmente rasgado. Se queres ter certeza de mantê-lo intacto, não deves entregar teu coração a ninguém, nem sequer a um animal. Envolve-o cuidadosamente em hobbies e pequenos luxos; evita todo envolvimento amoroso; encerra-o com segurança na urna ou no ataúde do teu egoísmo. Mas nesta urna - segura, escura, imóvel, sem ar, - mudará. Não se quebrará; se tornará irrompível, impenetrável, sem salvação. A alternativa à tragédia, ou ao menos ao risco de tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde podes estar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor é o inferno’4

Quando celebramos a Eucaristia recordamos que o sangue de Cristo é derramado ‘por ti e por  todos’. O mistério de amor, no mais profundo, é ao mesmo tempo particular e universal. Se nosso amor é só particular, corre o risco de tornar-se introvertido e sufocante. Se for somente um vago amor universal por toda a humanidade, corre o risco de tornar-se vazio e sem sentido. A tentação de um casal é de cultivar entre si um amor que seja intenso, mas encerrado e exclusivo. Muitas vezes escapa de ser destrutivo graças a chegada de uma terceira pessoa, o filho/a, que expande seu amor. A tentação dos célibes pode ser de tender a um amor que seja somente universal, um vago e caloroso amor por toda humanidade. Dickens nos fala em Bleack House de Mrs Jellyby que tinha uma ‘filantropia telescópica’, porque não podia ver nada que estivesse a frente de África. Amava os africanos em geral, mas nem sequer se deu conta da existência de seus próprios filhos.

Não podemos refugiar-nos nesta filantropia telescópica. Aproximar-se ao mistério do amor significará também que amaremos pessoas concretas, algumas com amizade e outras com profundo afeto. Temos que aprender a integrar estes amores em nossa identidade como religiosos, como casados ou solteiros.

Dizem-me que no passado se costumava advertir aos religiosos contra as ‘amizades particulares’. Nosso venerável  Gervase Matthew sempre dizia que lhe davam mais medo as ‘inimizades particulares’!

Bede Jarret OP foi o provincial dos dominicanos na província de Inglaterra nos anos 30. Numa ocasião escreveu uma carta preciosa a um jovem beneditino chamado Hubert van Zeller, que chegou a ser famoso escritor espiritual depois da guerra. Este jovem monge havia se enamorado de alguém a quem só conhecemos como P. Foi uma experiência espantosa. Temia que fosse o final de sua vocação religiosa. Bede viu que era o começo. Permitam-me transcrever uma citação. É impressionante pensar que isto foi escrito há mais de setenta anos:

‘Me alegro que te tenhas enamorado, porque creio que tua tentação foi sempre para o puritanismo, um fechamento, certa falta de humanidade. Tua tendência era quase no sentido de negar a santificação da matéria. Estavas enamorado do Senhor, mas não autenticamente enamorado da encarnação. Estavas realmente assustado. Pensaste (desculpe que te abra o leque sem pedir licença) que se em algum momento te relaxasses, saltarias pelos ares. Estavas cheio de inibições, que quase te mataram. Quase mataram tua humanidade. A vida te dava medo porque querias ser santo e sabias que eras um artista. O artista que há em ti via beleza por toda parte; o homem que queria ser santo em ti dizia: ‘Caramba, mas isso é terrivelmente perigoso’, o noviço dentro de ti dizia ‘mantenha os olhos bem fechados’, e Claud (seu nome de batismo) quase saltou pelos ares. Se P. não tivesse entrado em tua vida, poderias ter explodido. Creio que P. salvará tua vida. Celebrarei uma missa de ação de graças pelo que P foi e fez por ti. Faz muito tempo que precisavas de P. Teus parentes não podiam substituí-la. Também não os velhos e corpulentos provinciais’5.

            Não estou sugerindo que deveríamos todos sair correndo daqui e tentar buscar alguém para amar! Deus nos envia os amores e as amizades que são parte de nosso caminho para Ele, que é a plenitude do amor. Esperamos aqueles que Deus nos envia; quando e como os envia. Mas quando chegam devemos enfrentar o momento, como fez Jesus na Ultima Ceia.

            Ao amar alguém profundamente, teremos que aprender a ser castos. Cada um, solteiro casado ou religioso está chamado à castidade. Esta não é uma palavra popular em nossos dias, soa cafona, fria, distante, meio morta, nada atrativa. Herbert McCabe OP escreveu que ‘a castidade que não é uma manifestação de amor é meramente o cadáver da verdadeira castidade’. 6

            A castidade não é em primeiro lugar a supressão do desejo, ao menos segundo a tradição de Santo Tomas de Aquino. O desejo e as paixões contem verdades profundas sobre quem somos e que necessitamos. A simples supressão nos fará seres mortos espiritualmente ou fará que algum dia nos disparemos. Temos que educar nossos desejos, abrir seus olhos ao que realmente querem liberá-los dos pequenos prazeres. Necessitamos desejar mais profundamente e com maior clareza.

            Santo Tomas escreveu algo que é facilmente mal entendido. Dizia que a castidade é viver segundo a ordem da razão (II,II,151.1). Isto soa muito frio e cerebral, como se ser casto fosse uma questão de poder mental. Mas para Santo Tomas ‘ratio’ significa viver no mundo real, ‘em conformidade com a verdade das coisas reais’7 Quer dizer, viver na realidade de quem sou e quem são realmente as pessoas a quem amo. A paixão e o desejo podem levar-nos a viver na fantasia. A castidade nos faz baixar das nuvens, vendo as coisas como são. Para os religiosos, ou por vezes para os solteiros, pode dar-se a tentação de refugiar-se na fantasia perniciosa de que somos etéreas figuras angelicais, que não tem nada que ver com o sexo. Isso pode parecer castidade, mas é uma perversão da mesma. Isto faz lembrar a um de meus irmãos que foi celebrar no convento. A irmã que abriu a porta o olhou e disse: ‘Ah é você, Padre, estava esperando a um homem’

            É difícil imaginar uma celebração do amor mais realista que a Ultima Ceia. Não tem nada de romântico. Jesus diz a seus discípulos de forma simples e direta que isto é o fim, que um deles o trairá, que Pedro o negará, que os demais fugirão. Não é uma cena de amorzinhos a luz das velas num restaurante, isto é realismo levado ao extremo. Um amor Eucarístico nos joga de cheio frente a complexidade do amor, com seus fracassos e sua vitória final.

            Quais são as fantasias com que o desejo pode nos apanhar? Eu sugiro duas: Uma é a tentação de pensar que a outra pessoa é tudo, tudo o que buscamos a solução a todas as nossas aspirações. Isto é um capricho passageiro. A outra é não ver a dimensão humana da outra pessoa, fazendo-a simplesmente carne de consumo. Isto é luxuria. Estas duas ilusões não são tão diferentes como parece a primeira vista, uma é o reflexo exato da outra.

            Suponho que todos nós já conhecemos momentos de total teimosia, quando alguém se converte no objeto de todos os nossos desejos e no símbolo de tudo o que havíamos sonhado, na resposta a todas as nossas necessidades. Se não chegarmos a ser um com essa pessoa, nossa vida não tem sentido, está vazia. A pessoa amada chega a ser para nós a resposta a esse poço de necessidade grande e profunda que descobrimos dentro de nós. Pensamos nesta pessoa todo dia.

            Como Sheakespeare escreveu tão bem:

                      “De dia meus membros e de noite minha mente

                         não encontram paz nem para ti nem para mim”

           

            É como uma prisão, uma escravidão, mas uma escravidão que não queremos deixar. Divinizamos a pessoa amada e a colocamos no lugar de Deus. É claro que estamos adorando nossa própria criação, é uma projeção. Talvez quase todo amor verdadeiro passe por esta fase obsessiva. A única cura para isto é viver dia a dia com a pessoa amada e ver que não é Deus, mas só uma filha, um filho. O amor começa quando somos curados de nossa ilusão e estamos cara a cara com uma pessoa real e não com uma projeção de nossos desejos. Como disse Octávio Paz ‘o amor descobre a realidade para o desejo’8.

            Que buscamos com tudo isso? Que nos leva a teimar? Só posso falar pessoalmente.  Eu diria que o que houve sempre no fundo das minhas turbulências emocionais foi o desejo de intimidade. É o desejo de ser totalmente um, de acabar com os limites entre mim e a outra pessoa, para perder-se na outra pessoa, para buscar a comunhão pura e total. Mais que paixão sexual, creio que é a intimidade o que buscam a maioria dos seres humanos. Se vamos viver passando por crises afetivas creio que teremos que aceitar nossa necessidade de intimidade.

             Nossa sociedade está construída ao redor do mito da união sexual como culminação de toda intimidade. Este momento de ternura e de união física total é o que nos leva a intimidade total e a comunhão absoluta. Muita gente não tem esta intimidade porque no estão casados, ou porque seus matrimônios não estão felizes ou porque são religiosos ou sacerdotes. E podemos sentir-nos excluídos injustamente daquilo que é nossa necessidade mais profunda. Isto não parece ser justo! Como pode Deus excluir-me deste desejo profundo?

            Eu creio que cada ser humano, casado ou solteiro, religioso ou leigo, tem que aceitar as limitações da intimidade que pudemos conhecer agora. O sonho de comunhão plena é um mito, que leva alguns religiosos a desejar estar casados, e a muitos casados desejar estar com uma pessoa diferente. A intimidade verdadeira e feliz só é possível se aceitamos suas limitações. Podemos projetar em casais casados uma intimidade total e maravilhosa que é impossível, mas que é a projeção de nossos sonhos. O poeta Rilke entendeu que não poderia ter verdadeira intimidade entre um casal até que se dêem conta de que cada um, de certa forma, permanece só. Cada ser humano conserva solidão, um espaço ao seu redor que não pode ser eliminado. ‘Um bom matrimonio é aquele onde cada um nomeia o outro a ser guardião de sua solidão, e lhe mostra sua confiança, que é o que de maior pode dar-lhe...  Uma vez que se aceita que inclusive entre os seres humanos mais próximos segue existindo uma distancia infinita, pode crescer uma forma maravilhosa de viver um ao lado do outro, se conseguirem amar a distancia que existe entre eles, que lhes permite a cada um ver na totalidade o perfil do outro recortado contra um amplo céu’9.   

            Certamente nenhuma pessoa pode oferecer-nos esta plenitude de realização que desejamos. Isso só se encontra em Deus. RowanWilliams, arcebispo de Canterbury e homem casado, escreveu: ‘O eu se torna adulto e verdadeiro ao enfrentar-se com o caráter incurável de seu desejo: o mundo é tal que nada poderá dar ao eu uma identidade cheia e completa’10. Ou, para citar Jean Vainier, ‘A solidão é parte do ser humano, porque não existe nada que possa encher completamente as necessidades do coração humano’11.

            Para os que estão casados é possível uma maravilhosa intimidade uma vez que, como disse Rilke, se aceita que somos guardiãs da solidão da outra pessoa. E os que são solteiros e celibes, também podem descobrir uma intimidade profunda e bela com os outros. A palavra intimidade vem do latim intimare, que significa estar em contato com o que está mais no intimo da outra pessoa. Como religioso, meu voto de castidade me possibilita ser incrivelmente intimo com outras pessoas. Por que não tenho intenções ocultas, e meu amor não deve ser devorador e possessivo, posso aproximar-me muito ao profundo da vida de pessoas.

            O engano contrário a idealização não é fazer da outra pessoa Deus, e sim, torna-la um simples objeto, algo com que satisfaço minhas necessidades sexuais. A luxúria fecha nossos olhos à pessoa do outro, a sua fragilidade e a sua bondade. Santo Tomas disse, escrevendo sobre a castidade, que o leão vê o veado como comida, e a luxúria nos torna caçadores, depredadores que vêem no outro algo para devorar. Queremos simplesmente um pouco de carne, algo que possa devorar.  Uma vez mais a castidade é viver no mundo real. A castidade nos abre os olhos para ver que o que está diante de nós é efetivamente um corpo bonito, mas este corpo é alguém. Este corpo não é um objeto e sim um sujeito. Novamente cito a Hederman, ‘O voto de castidade evita que o instinto natural de caçador ponha armadilhas e salte sobre outros como depredador’12.  O que é espantoso nestas histórias de abusos sexuais é o fato que muitas vezes foram cuidadosamente planejados.

            Pode dar a impressão que a luxúria é paixão sexual fora do controle, desejo sexual selvagem. Mas, Santo Agostinho, que entendeu o sexo muito bem, acreditava que a luxuria tinha que ver com o desejo de dominar a outras pessoas, mais que com o prazer sexual. A luxuria é parte da libido dominandi, o impulso de termos o controle e converter-nos em Deus. A luxúria tem mais a ver com o poder que com o sexo. Como escreveu Sebastian Moore, ‘A luxuria, pois, não é paixão sexual fora do controle da vontade, mas é paixão sexual como disfarce da vontade de ser Deus... A tarefa que temos não é de submeter a paixão sexual à vontade, mas devolve-la ao desejo, cuja origem e fim é Deus, cuja libertação é a graça de Deus manifestada na vida, nos ensinamentos, na cruz e ressurreição de Jesus Cristo’.13

            O primeiro passo para superar a luxúria não é suprimir o desejo, mas restaurá-lo, descobrir que o desejo é por uma pessoa e não por um objeto. Muitos dos tristes escândalos de abuso sexual de menores vieram de sacerdotes ou religiosos que eram incapazes de enfrentar relações adultas com iguais. Somente podiam procurar relações em que teriam o poder e o controle. Eles tinham que permanecer invulneráveis. Na Ultima Ceia Jesus toma o pão e o dá aos discípulos dizendo ‘Este é meu corpo que se entrega por vocês’. Ele se entrega a si mesmo. Em vez de tomar o controle sobre eles, se entrega aos discípulos para que façam com Ele o que queiram. E nós sabemos o que farão. É a imensa vulnerabilidade do amor verdadeiro.

            A luxúria e o capricho passageiro podem parecer duas coisas muito diferentes e, no entanto, são reflexo uma da outra.  Na idealização um converte a outra pessoa em Deus e na luxúria ele mesmo se faz Deus. No primeiro caso a pessoa se faz totalmente sem poder, e no segundo se arroga poder absoluto. Rowan William escreveu que o amor ‘se move entre o egoísmo e a abnegação’14. Dá-te um intenso sentido de ti mesmo, e ao mesmo tempo te faz desaparecer do mapa. Talvez a luxuria se dá a si, prevalece o egoísmo, e no capricho passageiro a abnegação é tão total que faz perder a identidade.

            Assim, pois, castidade é viver no mundo real, vendo o outro como ele ou ela é e a mim mesmo como sou. Não somos nem divinos, nem um pedaço de carne. Ambos somos filhos de Deus. Temos nossa história. Fizemos votos e promessas. O outro tem compromissos, talvez com uma esposa, um esposo. Nós como religiosos ou sacerdotes nos entregamos a nossa Ordem ou diocese. É assim como estamos, comprometidos e ligados a outros compromissos, que podemos aprender a amar com corações e olhos abertos.

            Isto é difícil porque vivemos no mundo da realidade virtual, onde podemos navegar em mundos de fantasia como se fossem reais. Vivemos numa cultura onde fica difícil distinguir entre fantasia e realidade. Tudo é possível no mundo cibernético. Por isso a castidade é difícil. É a dor da descoberta da realidade. Como podemos baixar à terra?

            Eu sugiro três passos. Temos que abrir os olhos e ver os rostos de quem está diante de nós. Com que freqüência abrimos realmente os olhos para ver o rosto das pessoas e vê-las como são? Brian Pierce OP, um dominicano de Estados Unidos, vai publicar em breve um livro que compara o pensamento de Mestre Eckhart, o místico do séc. XIV, e Thich Nhat Hanh, um budista do séc.xx. Para ambos o começo da vida contemplativa é estar no momento presente, o que o budista chama de ‘consciência’. Só é real o momento presente. Estou vivo neste momento, e, portanto é neste momento que posso encontrar-me com Deus. Tenho que aprender a serenidade de deixar de me inquietar pelo passado ou pelo futuro. Agora, o momento presente, é quando começa a eternidade. Eckhart pergunta: Que é hoje? E ele responde, ‘Eternidade’.

            Na Ultima Ceia Jesus agarrou o momento presente. Em vez de inquietar-se pelo que Judas havia feito, ou porque os soldados estavam se aproximando, Ele viveu o agora, e tomou o pão e o partiu e o entregou aos discípulos dizendo, ‘Este é meu corpo, entregue por vocês’. Cada Eucaristia nos faz mergulhar neste agora eterno. É nesta hora que podemos colocar-nos na presença do outro, calados e quietos em sua presença. Agora é o momento em que posso abrir meus olhos e olha-la. Por estar tão ocupado, correndo de um lado ao outro, pensando no que vai acontecer depois,  pode ocorrer que não veja a minha própria cara, sua beleza e feridas, suas alegrias e tristezas. Enfim, a castidade implica em abrir os olhos!

            Em segundo lugar, Posso aprender a arte de estar só. Não poderei estar à vontade com as pessoas se não for capaz de estar só em alguns momentos. Se a solidão me dá medo, então buscarei os outros não porque isto me deleite, mas como solução do meu problema. Buscarei nos outros simplesmente como uma forma de preencher o meu vazio, minha espantosa solidão. Assim não serei capaz de alegrar-me neles por seu próprio bem. Por isso quando a gente estiver com outra pessoa, esteja verdadeiramente presente, e quando estiver só aprenda a amar este estar só. E se não for assim, tenderá a sufocar o outro com sua presença.

            Finalmente cada sociedade vive de sua história. Nossa sociedade tem suas histórias típicas. Muitas vezes são histórias românticas. O rapaz conhece a moça (ou às vezes o rapaz conhece a outro rapaz), se enamoram e vivem felizes para sempre. É uma boa história, que acontece com freqüência. Mas, se pensamos que  é a única história possível, viveremos com possibilidades muito reduzidas. Nossa imaginação precisa ser alimentada com histórias que nos falem de outras formas de viver e amar. Necessitemos abrir para os jovens a enorme diversidade de formas onde podemos encontrar sentido e amor. Por isso são tão importantes as vidas de santos. Mostram-nos que há diferentes formas de amar heroicamente, como pessoas casadas ou solteiras, como religiosos ou leigos. Eu me senti muito tocado pela biografia de Nelson Mandela, por exemplo, The Lond Road to Freedom. É um homem que deu toda sua vida pela causa da justiça e a derrubada do apartheid, e isso significou não poder levar a vida matrimonial que desejava, uma vez que passou anos na prisão.

            Assim o primeiro passo da castidade é baixar das nuvens. Muito rapidamente mencionarei outros dois passos. O segundo passo, bem brevemente, é abrir-nos ao amor, para não ficar apegado a pequenos mundos. O amor de Jesus se revela quando toma o pão e o parte para ser repartido. Quando descobrimos o amor não devemos conservá-lo em um pequeno armário particular para nosso deleite pessoal, como uma secreta garrafa de Whisky, guardada e escondida para nosso desfrute pessoal. Temos que partilhar nossos amores com nossos amigos e com aqueles que amamos. Desta forma o amor particular se expande e sai ao encontro da universalidade.

            Sobretudo podemos ampliar o espaço para que reconheçamos Deus em cada forma de amor. Em cada história concreta de amor vive o mistério total do amor que é Deus. Quando amamos profundamente a alguém, Deus já está aí. Mais do que ver nossos amores como uma competição com Deus, eles oferecem lugar onde podemos montar sua tenda. Como Bede Jarret dizia a Hubert van Séller: ‘Se pensasses que o único que podes fazer é retirar-te para dentro de tua própria concha, nunca verias quão amoroso é Deus... deves amar a P. e buscar a Deus em P... Desfruta sua amizade e paga o preço da dor que ela tráz consigo, recorda-o em tua missa e deixa que Ele seja a terceira pessoa deste amor’. A abertura da Amizade Espiritual [de Aelred of Rivaulx]: “Aqui estamos tu e eu, e espero que entre nós Cristo seja um terceiro”. É necessário, pois, do contrário, se te distancias do amor nunca saberás quão amoroso é Deus. Pois, somente se deixas Deus participar deste amor e o honras, poderás ver e sentir o mistério profundo deste amor. Se separarmos o nosso amor a Deus e nosso amor às pessoas concretas, ambos se tornarão amargos e enfermos. E significará ter uma vida dupla.

            O terceiro passo, talvez o mais fácil, é que nosso amor deve ser libertador. Todo amor, seja entre pessoas casadas ou solteiras, deve libertar. O amor entre marido e esposa deve abrir grandes espaços de liberdade. E isso é ainda mais certo para quem é religioso/a ou sacerdote. Temos que amar para que os outros sejam livres para amar a outro mais do que a nós. Santo Agostinho chama amigo do noivo, Amicus Sponsi, ao bispo. Em inglês dizemos The Best Man na boda. O ‘best man’ não procura fazer que a noiva se enamore dele, e nem as damas de honra, ele está assinalando para outro...

            Numa ocasião um dominicano francês comparou Deus a um cavalheiro inglês, que é tão discreto que não quer impor-se de nenhuma forma sobre aqueles que ama. Apresentar-se-á para verificar se não falta nada, se todos estão bem acomodados e desaparecerá, por mais que desejasse estar presente. Como diz C.S. Lewis: ‘ É um privilégio divino ser sempre mais o amante e não o amado’15. Deus é sempre o que ama mais do que é amado. Esta pode muitas vezes ser nossa vocação. Como disse Auden: ‘Se o amor não pode ser igual, que seja eu o mais amante’16.

            Isto significa estar atento para evitar tornar-se o centro da vida de alguém e fazer com que se torne dependente. Devemos estar sempre procurando outras formas e meios de apoio, outras referências, para não tornar-nos exageradamente importantes. Assim a pergunta que devemos retomar sempre é se este amor está fazendo a pessoa ser mais forte, mais independente, ou está mais fraca e dependente de mim?...

            Aprender a amar é um tema difícil. Não sabemos para onde nos levará. Parece que põe a vida de ponta cabeça. Possivelmente nos machuquemos. Seria mais fácil ter corações de pedra no lugar dos de carne, só que então estaríamos mortos. E se estivéssemos mortos não poderíamos falar do Deus da vida que é amor. A pergunta que fica é: Como atrever-nos a viver passando por esta morte e ressurreição?

            Em cada Eucaristia fazemos memória de Jesus que derramou o seu sangue pelo perdão dos pecados. Isto não significa que tinha que aplacar a ira de um Deus furioso. Nem tão pouco que, se falhamos, podemos somente ir confessar nossos pecados e ser perdoados. Significa muito mais. Significa que em todas as nossas lutas para ser pessoas que amam e estão vivas, Deus está conosco. A graça de Deus está conosco nos momentos de fracasso e de confusão, para colocar-nos novamente de pé... Da mesma forma que pela ressurreição Deus converteu a sexta feira santa em uma benção, podemos estar certos de que todas as nossas tentativas de amar darão frutos. Por isso não temamos! Podemos entrar nesta aventura com confiança e coragem.

 

Reflexão  feita para a Assembléia americana da Frater por

 

 

                                 Frei Miguel Angel Arrasate –( Dominicano )

 

                                                          Fev. 2005    

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

[1] 12th Homily on the Eph to the Colossians.

2 Manikon Eros: Mad Crazy Love  Dublin 2000 p.66

3 Comm on Sentences III, 25, 1,1, 4m

4 The Four Loves London 1960 p.111

5 ed. by Bede Bailey, Aidan Bellenger and Simon Tugwell, Letters of Bede Jarrett Downside and Blackfriars 1989 p.180

6 Law, love and language p.22

7 Josef Pieper The Four Cardinal Virtues Notre Dame 1966 p. 156

8 Quoted Herdman op.cit p.87

9 John Mood Rilke on Love and Other Difficulties, translations and Considerations of Rainer Maria Rilke,  New York 1993 27ff. quoted by Hederman op.cit. p. 81

10 Lost Icons p.153.

11 Becoming Human p.7

12 op. cit. 96

13 op.cit 105

14 Lost Icons p.156

15 op.cit. 184

16 Collected Shorter Poems 1927 – 1957 London 1966 p. 282