LUPUS. O que é?
O Lupus Eritematoso Sistêmico
(LES) é uma doença crônica de causa desconhecida, onde acontecem alterações fundamentais no
sistema imunológico da pessoa, atingindo predominantemente mulheres. O sistema
imunológico é uma rede complexa de órgãos, tecidos, células e substâncias encontradas
na circulação sanguínea, que agem em conjunto para nos proteger de agentes
estranhos. Uma pessoa que tem LES
desenvolve anticorpos que reagem contra as suas células normais, podendo
consequentemente afetar a pele, as articulações, rins e outros órgãos. Ou seja,
a pessoa se torna "alérgica" a ela mesma, o
que caracteriza o LES como uma doença auto-imune.
Mas não é uma doença contagiosa, infecciosa ou maligna. A maioria dos
casos de LES ocorre esporadicamente, indicando que fatores genéticos e
ambientais tem um papel importante na doença. O Lupus varia enormemente de um
paciente para outro, de casos simples que exigem intervenções médicas mínimas,
à casos significativos com danos à órgãos vitais como pulmão, coração, rim e
cérebro. A doença é caracterizada por períodos de atividade
intercaladas por períodos de remissão que podem durar semanas, meses ou
anos. Alguns pacientes nunca desenvolvem complicações severas.
Histórico
Em 1851, o médico francês
Pierre Lazenave observou pessoas que apresentavam
"feridinhas" na pele, como pequenas mordidas de lobo. E em 1895, o
médico canadense Sir William Osler caracterizou
melhor o envolvimento das várias partes do corpo e adicionou a
palavra "sistêmico" à descrição da doença.
Lupus = lobo eritematoso = vermelhidão sistêmico = todo
Definição
O "American College of Rheumatology", uma
associação americana que reune profissionais reumatologistas, estabeleceu em 1971 e revisou em 1982, 11
critérios que definem o quadro de Lupus. Estes critérios foram modificados em
1997. Uma pessoa pode ter LES se 4 critérios estiverem presentes:
Critérios de pele:
1 - mancha "asa borboleta" (vermelhidão característica no nariz e
face)
2 - lesões na pele (usualmente em áreas expostas ao sol)
3 - sensibilidade ao sol e luz (lesões após a exposição de raios ultravioletas
A e B)
4 - úlceras orais (recorrentes na boca e nariz)
Critérios sistêmicos:
5 - artrite (inflamação de duas ou mais juntas periféricas, com dor, inchaço ou
fluído)
6 - serosite (inflamação do revestimento do pulmão -
pleura, e coração - pericárdio)
7 - alterações renais (presença de proteínas e sedimentos na urina)
8 - alterações neurológicas (anormalidades sem explicações - psicose ou
depressão)
Critérios laboratoriais:
9 - anormalidades hematológicas (baixa contagem de células brancas - leucopenia, ou plaquetas - trombocitopenia,
ou anemia causada por anticorpos contra células vermelhas - anemia hemolítica)
10 - anormalidades imunológicas - (células LE, ou anticorpos anti-DNA,
ou anticorpos SM positivos, ou teste falso-positivo para sífilis)
11 - fator antinúcleo positivo (FAN)
O diagnóstico
correto é feito a partir do histórico do paciente associado ao exame clínico
e exames laboratoriais. Algumas perguntas feitas ao paciente podem ajudar
bastante no diagnóstico.
1 - você teve dor ou inflamação das juntas por mais de 3 meses?
2 - você teve feridinhas em sua boca ou nariz por mais de 2 semanas?
3 - os seus dedos mudam de cor, ficando pálidos ou roxos, quando o tempo está
frio ou quando estão em contato com água fria?
4 - alguma lesão de pele, vermelha, surgiu no seu rosto, sobre o nariz e
bochechas, por mais de um mês?
5 - durante algum exame de sangue alguém lhe disse que a contagem de células
vermelhas, brancas ou plaquetas estava baixa?
6 - sua pele fica muito vermelha e irritada, principalmente no rosto, depois
que você toma sol? É pior em comparação com outras pessoas?
7 - você sentiu dificuldade ou dor para respirar durante alguns dias?
8 - você tem perdido muito cabelo ultimamente? Mais do que o normal?
9 - você já teve alguma convulsão?
10 - alguma vez você fez exame de urina onde foi constatada muita proteína?
Se 3 ou mais destas perguntas forem respondidas com um "sim" é
recomendável um exame de sangue para testar a possibilidade de LES.
Exames Laboratoriais
Hemograma - é o exame onde são contadas as células vermelhas
(hemácias ou eritrócitos) e brancas (leucócitos) do sangue, assim como as
plaquetas, responsáveis pela sua coagulação. 40% dos pacientes de Lupus
apresentam anemia (queda de células vermelhas),
Teste de Coombs - exame sanguíneo que comprova
que a anemia é resultante da produção de anticorpos contra as hemácias - anemia
hemolítica.
Urina - os pacientes de Lupus podem apresentar aumento de células
vermelhas (hematúria), aumento de estruturas
cilíndricas (cilindrúria) e aumento de proteína (proteinúria) na urina.
FAN (fator anti-núcleo) - procura-se um
anticorpo dirigido contra uma substância do núcleo da célula. No núcleo
localizam-se algumas proteínas e também o DNA.
Qualquer anticorpo contra o DNA ou contra as proteínas do núcleo determina um
FAN positivo, o que ocorre em
Células LE - os neutrófilos são capazes de
"engolir" núcleos de outras células atacadas pelo anticorpo anti-núcleo, formando as células LE positivas. Cerca de 80%
dos pacientes de Lupus apresentam este teste positivo.
Anticorpo anti-DNA - existem dois tipos de DNA,
nativo (dupla hélice) e mono-hélice, sendo que
Anticorpo anti-SM - anticorpo dirigido contra uma proteína do núcleo no
sangue, mas apenas 30% dos pacientes produzem esse anticorpo.
Dosagem de complemento - quando o anticorpo se liga ao antígeno forma-se
uma estrutura chamada imunocomplexo. Quando este se
deposita, atrai uma substância chamada complemento, responsável pela
inflamação. A dosagem de complemento total (CH50) e das frações C3 e C4 são
medidas, avaliando-se envolvimento renal e atividade da doença.
Em qualquer
tratamento de uma doença, individualizado e prolongado, é preciso desenvolver
um ambiente de confiança e honestidade entre o médico e o paciente, a partir de
um diálogo franco e aberto. É preciso obter todas as informações sobre o Lupus
e os recursos da medicina atual para tratar e controlar suas manifestações.
Não há um remédio para o Lupus que funcione da mesma forma como um
antibiótico funciona para acabar com uma infecção. O tratamento do LES
engloba uma série de medidas, entre medicamentos e normas para que se viva bem.
Sol
Os pacientes com fotossensibilidade ou manchas,
devem evitar a exposição ao sol, fazendo sempre o uso de filtros
solares.
Dieta
Sabe-se que, quando os pacientes usam corticosteróides,
a retenção de água no organismo acontece provocando inchaços, devendo-se então diminuir
o sal na dieta normal. Quando o peso está acima do normal, deve-se reduzir calorias.
Há estudos sobre a eficácia de óleo de peixe na redução de inflamação.
Além disso, cientistas suspeitam que o aminoácido l-canavanina
presente na alfafa, provoca sintomas de Lupus, o que foi comprovado em
pesquisas com macacos. Deve-se então evitá-la.
Drogas, Álcool e Fumo
Sulfas, anticoncepcionais orais e penicilinas podem disparar a doença e
devem ser evitados. O álcool e o fumo são prejudiciais a qualquer
pessoa, mas no caso de LES deve-se principalmente evitar a interação do álcool
com sedativos e antialérgicos, e do fumo no caso de acometimento pulmonar.
Exercícios e Repouso
As articulações tem estruturas que devem ser bem cuidadas. Quando inflamadas
precisam de períodos de repouso intercalados com os de atividade, evitando-se
lesões. Também deve-se dar atenção à postura e
posições de trabalho e lazer. Por isso, exercícios regulares podem
ajudar a prevenir fraqueza muscular e fadiga.
Medicamentos
Não existem programas de tratamento iguais para todos os pacientes.
Considera-se o grau de evolução da doença bem como as queixas de cada paciente.
Muitas vezes são utilizados vários remédios ao mesmo tempo para controlar os
sintomas.
Corticosteróides - são hormônios sintéticos, cópia do
hormônio cortisona produzido pela glândula supra-renal,
extremamente potentes contra a inflamação. Mas apresentam efeitos
colaterais em dosagens altas como ganho de peso, "inchaço", espinhas,
pressão alta, catarata, devendo então ser usados com precaução e unicamente
através de indicação médica. Os mais comuns são: prednisona,
prednisolona, hidrocortisona, entre outros.
Antiinflamatórios não-esteróides - alguns sintomas
como fadiga, febre e artrite podem ser tratados eficientemente com não-esteróides. Não apresentam os efeitos colaterais dos esteróides, mas registra-se a intolerância do estômago. O
mais antigo é a aspirina.
Antimaláricos - são muito úteis para o controle da artrite e problemas de pele,
usados também contra a malária. O maior problema com o seu uso se refere à visão, devendo-se estar atento à acuidade visual, o
que sugere exames de controle junto ao oftalmologista. Os antimaláricos usados
são cloroquina e hidroxicloroquina.
Imunossupressores - são usados para diminuir a ação do sistema imune, existindo
controvérsias sobre o seu uso em função de grandes efeitos colaterais. É
preciso avaliar muito seriamente os benefícios e riscos associados a este
tratamento.