O silêncio dos bons

Dom Luiz C. Eccel *

São muitas as pessoas que não se dão conta de que são passageiras do trem da vida (Sl 118,19). Não importa em qual vagão você está e nem a classe do vagão. Em algum momento ele chegará ao ponto final. Muitas vezes, por acidente de percurso, não chega ao destino previamente traçado.

A ânsia e a ganância estão tão impregnadas em algumas pessoas que pensam e agem como se fossem donas da verdade, da própria vida e da vida de outras pessoas, donas do mundo. Em virtude disto o estrago e o atraso na construção de um mundo fraterno, justo, solidário e igualitário é enorme.

É importantíssimo recordar diariamente que, na verdade, não somos donos de nada, nem mesmo da nossa própria vida. Somos apenas administradores e livremente escolhemos ser fiéis ou não.

No princípio, como relata a Sagrada Escritura, fomos criados do nada e vamos caminhando para o Absoluto, para Aquele que é a Verdade e o Senhor da Vida. Em algum momento lá chegaremos. Os que tiverem optado pela "fidelidade e justiça" que gera vida, serão salvos e os que tiverem optado pela "infidelidade e injustiça" que gera morte, serão condenados.

Este ano, num grande encontro, pude dizer com todas as palavras para os participantes: "A quase totalidade de nós aqui presentes não podemos esquecer nossas raízes, e muito menos negá-las. A maioria dos nossos antepassados veio do Velho Mundo, no final do século XIX e início do século XX. Tiveram que deixar seu torrão natal, alguns parentes, seus poucos pertences, partindo com dor e um coração cheio de tristeza. Partiram para não morrer de fome; a quase totalidade partiu porque lá não havia mais esperança de vida, tamanha era a miséria. Muitas pessoas nem chegaram ao destino. Morreram nos porões dos navios e foram jogadas ao mar, agregando mais tristeza aos corações já estraçalhados pela dor da partida. Quantas saudades, sofrimentos, tristezas mil... Vieram, conforme o ditado, ‘com uma mão na frente e outra atrás’. Esta é uma expressão muito usada para dizer: ‘vieram com a cara e a coragem’. Uma coragem muito camuflada num misto de esperança e medo. Porém, muitos de nós já esquecemos esta parte real da nossa história, ou fazemos de conta que ela não existiu, revelando um coração duro e frio. Não sei a troco de que, pois "tudo é vaidade", diz a escritura no Livro do Eclesiastes 1,2.

As pessoas que chegaram, após semanas de sofrimentos nos navios, sofreram mais uma vez por estarem numa terra, língua e cultura estranhas. Sofreram por ficar aguardando o pedaço de terra que lhes caberia e a condução que os levaria...

Apesar de tudo, os grupos de migrantes se uniam na dor e na esperança, se ajudavam e se encorajavam mutuamente. De acampamento em acampamento, e com muito luta, foram vencendo os obstáculos e chegaram. Algumas pessoas e famílias tiveram mais êxito que outras por vários fatores. Quantas vezes já ouvi está história de tantas pessoas!

Mas a verdade é que foram acolhidas em terras que não eram suas e que, todos sabemos, pertenciam ao paraíso terrestre de nossos irmãos Indígenas, que foram sendo expulsos, assassinados, dizimados a mando das "autoridades" da época. Tanto é verdade que quando Cabral aqui aportou havia 5 milhões de índios e hoje há em torno de 800 mil. E a causa, já vimos.

Porém, com mais tristeza se enche o coração quando sabemos que pessoas que hoje se fazem passar por donas da verdade, da justiça e do mundo, esqueceram que fazem parte da história neste texto narrada. Negam suas origens, suas raízes. Negam de forma tão bruta que não permitem aos deserdados de hoje: os sem teto, sem comida, sem terra, sem saúde, sem trabalho, sem dignidade,... buscarem um lugar ao sol, na luta, por um pedaço de terra para morar, trabalhar e viver, como os nossos antepassados. Alguém entende esta reação?

A estas pessoas é preciso recordar sempre: Cuidado porque a terra é nossa dona. Um dia, o trem da vida vai chegar ao seu destino e será a mãe Terra que irá nos acolher no seu útero, para nos fazer ressuscitar para a salvação ou a condenação, conforme o descrito e que está no Evangelho de João 5,29.

A hora de mudar de mentalidades, corações e instituições é agora. Depois, certamente, será tarde. No Evangelho de Lucas 16, 19-31, temos a parábola de Jesus sobre o homem rico e o pobre Lázaro. Ambos morreram. Lázaro foi para o céu e o rico para o inferno. O rico pediu a Deus que permitisse a Lázaro molhar o dedo e vir refrescar sua língua porque sofria muito nas chamas. Não foi permitido. Então, o rico pediu a Deus que enviasse alguém do céu para avisar aos seus irmãos para que mudassem de mentalidade, se convertessem para não caírem no mesmo lugar tenebroso. Deus lhe respondeu: na terra tenho os profetas que falam por mim. Se não ouvem a eles, também não ouvirão a outros.

Mas, por que o rico foi condenado? Por ser rico? Não. Foi por causa da dureza do seu coração, que não permitia ver nas outras pessoas irmãos e irmãs, filhos e filhas de Deus que precisam igualmente viver com dignidade. Porque não partilhava. Não era solidário. Enfim, o que importava é que ele e sua família possuíssem. Os outros são os outros. Eis os motivos. No mesmo texto do Evangelho supramencionado Deus disse ao rico: "Há um grande abismo entre nós". Abismo que o rico construiu por ser dono da verdade, do ter, do prazer, da "justiça", do mundo.

Algumas pessoas dizem: Existem pessoas que são oportunistas. Sim, em todos os segmentos da sociedade existem os oportunistas. Mas, não busquemos justificar nossa ganância e dureza de coração. Já sabemos antecipadamente qual será o nosso fim pela forma de pensar e agir. Não podemos usar de razões frívolas em nossos julgamentos, pois o Juiz Supremo, naquele dia, por conhecer o mais profundo das nossas razões e corações, julgará com perfeição absoluta.

Para mim não importa que existam pessoas mais ricas desde que todas as outras possam viver com dignidade, até porque, como dizem: "O caixão não tem gavetas", e mesmo que tivesse de nada adiantaria.

Se nos falta fé, ou mesmo independentemente do credo que professamos, busquemos olhar para os pássaros: Como são simples, solidários e por isso belos. Voam livremente e quando pousam numa árvore para alimentar-se dos seus frutos o fazem com singeleza. Comem o necessário e novamente voam livres sem levar numa sacola aquilo que sobra na árvore. Outros pássaros podem vir se alimentar também. No mundo, há lugar para todos. Os pássaros sabem que encontrarão alimentos em outras paragens quando a fome bater. O pai do céu é perfeito. Criou tudo e viu que tudo era bom (Gn 1,31).

Temos muito que aprender com a natureza. Crendo ou não, aprendamos pelo menos as lições que nos dão os ditos irracionais. Será suficiente. Lições de partilhas, de solidariedade e de cuidados para não depredar a natureza. E nós temos consciência do quanto isto é urgente!

Não seria preciso escrever ou dizer nada disso se realmente agíssemos, pelo menos, racionalmente em relação a todos os seres criados.

Mas é preciso, pois o senhor Martin Luther King, negro estadunidense, militante da paz e dos direitos humanos, assassinado em l968, disse: "O que me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons".

* Bispo Diocesano de Caçador-SC