RECORDANDO...

 

Há poucos dias, resolvi arrumar minha estante de livros. Em duas prateleiras estão enfileirados 25 álbuns de fotos 10x15, relacionados à vida da FCD no Rio. O primeiro data de 1979 e o último de 2006. Cada álbum tem 100 fotos. Que susto!... Como o tempo passa!... Vinte e oito anos!...

Aquele primeiro álbum me transportou a uma tarde de dezembro de 1978 quando, forçada, participei de uma reunião numa igreja em Copacabana em que um padre, vindo de São Paulo, iria apresentar uma “associação” de pessoas com deficiência na qual ele trabalhava.

Eu não tinha motivação alguma para me interessar por outra associação, pois já participava de uma e bem conhecia várias outras aqui no Rio. Além do mais, a minha prevenção contra esta, desconhecida ainda, era agravada por sua conotação religiosa... Experiência vivida me provara a tendência paternalista de religiosos em relação às pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, todavia, dois meses antes, eu participara de um Cursilho, e procurava, dentro da minha limitação física, me engajar em algum grupo que abrangesse aspectos espiritual, social e ainda minha experiência de vida de pessoa com deficiência desde a infância. Todos os grupos que eu conhecia eram limitados, fechados e frios...

Impossibilitada, por motivos familiares, de declinar o convite, e caindo por terra todas as desculpas possíveis, fui obrigada a comparecer. Lá estavam: a senhora que me convidara e eu, umas três ou quatro senhoras da igreja, três rapazes com deficiência, um deles acompanhado pelo tal padre, ambos de São Paulo,

Aos poucos fui me interessando pelos relatos dos dois palestrantes. Percebi que falavam de algo inédito. Chamava-se “Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes”. Era justamente o que eu procurava: ela via a pessoa com deficiência como um todo: os aspectos humano, espiritual, social e o que mais me impressionou: a responsabilidade missionária de seus participantes, mesmo sendo pessoas com deficiência. Era um “Movimento de Evangelização”.

O padre era Pe. Geraldo Labarrère e o rapaz paulista, José Carlos Barbosa. Paixão à primeira vista! No final da palestra, Pe. Geraldo passou para um dos rapazes presentes, que eu desconhecia, a responsabilidade de iniciar a tal Fraternidade aqui no Rio. Saí entusiasmada! Acabara de encontrar o que eu procurava há tanto tempo...

Aguardei impaciente ser chamada para o início do grupo. Porém, nada... Mas, em março de 1979, uma das senhoras presentes à reunião me telefonou, pois precisava muito falar comigo pessoalmente. Fui procurá-la na sala de uma igreja em Botafogo. Para minha total decepção, informou-me que o rapaz responsável pela implantação da Fraternidade no Rio desistira e não havia mais ninguém para assumir, pois o outro também se recusara. Das três pessoas com deficiência que estiveram lá presentes, apenas eu restava. Teria que ser uma pessoa com deficiência. Perguntou-me se eu aceitaria. Fiquei atordoada!... Falei-lhe da dificuldade, pois eu não tinha experiência alguma de coordenar um grupo e além do mais muito pouco sabia daquela Fraternidade. Pedi-lhe tempo para pensar... Fui para a capela...  Rezei... Voltei e lhe comuniquei que eu assumiria. Então ela me entregou um cartãozinho com uma mensagem enviada por Maria de Lourdes Guarda, Coordenadora da FCD de São Paulo.

Vinte e oito anos se passaram!... Quanto trabalho, decepção, cansaço, mas, sobrepondo a todas as horas difíceis, quanta riqueza, quanta beleza, quantos testemunhos de vida, de superação, de amor, da presença de Deus... Dizem que geralmente a paixão é efêmera, esmorece com o tempo. Aquela minha paixão, porém, não diminuiu. Perdura até hoje.

Encontrei e encontro na Fraternidade a minha realização pessoal, meu objetivo de vida. Como me foram e me são importantes aquele apoio inicial de Maria de Lourdes, minha amiga inesquecível que já está junto do Pai; de Pe. Geraldo, meu grande amigo até hoje, e de José Carlos que há pouco reencontrei pela Internet...

Nice – FCD/RJ