A Máscara

 
Anahi Guedes de Melo*

Existe um jogo, cheio de técnicas, de silêncio e de comportamento, que um grupo inteiro é capaz de sustentar por toda a vida para evitar a culpa ou, no mínimo, para lançá-la sobre outrem.

Isto é muito mais comum do que se pode imaginar. Ocorre desde o relacionamento sócio-familiar e se estende até as relações sócio-políticas de uma nação.

Duvide não do que eu digo. Vou mostrar já como é que isso se dá.

Toda a máscara de um grupo familiar é, primeiro, a religião. Então somos "educados" para não rir, para conviver "harmoniosamente" na família frente às falsidades, oportunismos. E com ela a tensão só vem muito tempo depois, quando a máscara cai. Depois das agressões, depois de todos os nãos, ainda ficamos na farsa do "estamos bem e felizes".

Não sei se dá para entender.

A cultura do grupo vai inibir a expressão da sua vontade. Vai impedir (inconscientemente, porque eles todos querem sobreviver à sua própria falsidade) a triste descoberta da verdade. E serei feita silenciosa dentro daquele grupo. Tornar-me-ei silenciosa fora daquele relacionamento também.

Serei criticada e não saberei qual é a razão da crítica. Tentarei entender e não poderei saber de nada. Serei esquisita, falarei quase nada e tomarei distância daqueles que poderiam ser meus grandes amigos.

Ficarei isolada do mundo que está lá do lado de fora e, assim, não poderei comparar as realidades, tampouco descobrir as verdades.

Assim, para benefício do pai (que pai ?), bom pai (bom ?) inclusive, as mulheres, principalmente as mulheres, são-lhes submissas. Toda a deslavada mentira deles e todos os abusos que realizarem sobre o sexo feminino, na estupidez da cultura machista, será recebida como justificada, devido ao imperialismo das exigências do contexto social ou sei lá mais o quê.

Mas não há justificativas, não há desculpas.

Não se pode admitir que, no século XXI, pessoas bem-entendidas considerem um comportamento paterno ou marital de abuso como justificado. E "ouvi" de algumas mulheres: "mas ele estava desesperado"... Entenda. Minha avó materna diz para não levarmos nada adiante porque "ele é um coitado sofrido". Nem fazia idéia do estrago, movida pela cegueira social e a falta de diálogo.

Eu também tenho medo. Já o tive muito mais antes, pretendi a morte um dia, quando achava que não restava mais nenhuma esperança de escapar. Mas nem por isso vou abusar da vida de outra pessoa. Nem por isso vou desrespeitá-la, nem por isso vou ferir a sua dignidade.

A mulher, que sobrou, não poderia saber o que é ser amada.

Não sei se os amigos puderam perceber que, da relação familiar machista, opressora, que auxiliou na perda ou na não aquisição do significado do saber-se e sentir-se amada, restou a desvalorização da comunicação social.

O que é que isso, se não se der o esclarecimento, a descoberta da verdade, e a conseqüente mudança, pode gerar?

No ambiente sócio-político, a dominação. Aquela técnica de inferiorizar o outro, de desrespeitar a sua autonomia e de manter total domínio e controle sobre sua vida, é a que se prestou para o golpe militar de 1964 e é a que se presta, hoje, na edição abusiva de medidas provisórias para "resolver" os problemas de uma nação inteira, "autoritariamente". Esta cultura permite a falta de participação popular.

É assim que funciona. Do âmbito familiar de domesticação (este espaço é o primeiro entorno no tocante à educação) ao segundo entorno (o ambiente social que está do lado de fora da casa residência da família). Para o filósofo Echeverría, o terceiro entorno, o terceiro espaço social de convivência, surgiu com a internet.

Vamos preservar este cantinho de comunicação social da dominação egoísta e do abuso aos valores de humanidade.

*Anahi Guedes de Mello, membro-integrante desde 2000 do Fórum Catarinense pelo Fim da Violência e Exploração Sexual Infanto-Juvenil