Diagnóstico e Análise da Exclusão Educacional das Crianças e Adolescentes com Deficiência.

 

Ao lado dos imensos contingentes populacionais que sofrem maior exclusão no Brasil representados pelas pessoas de raça negra/parda indígena, e nos diversos subgrupos de idade, sexo, encontra-se grande parte dos 25 milhões de brasileiros,  14,5% da população Brasileira,  que declarou possuir alguma deficiência permanente ao Censo 2000.

Entre as regiões brasileiras, o nordeste e o norte apresentam percentual de incidência de deficiências acima da média nacional, respectivamente, 16,7% e 16,1%. E entre, os sexos o percentual de deficiência é maior entre as mulheres, 15,3% contra 13,7% dos homens.

Quando se analisa a escolaridade de pessoas com deficiência, com 15 anos ou mais, verifica-se que 41,3% ou não possui instrução ou tem menos de 1 ano de estudo e que 26,9%  do total desse grupo possui apenas de 1 a 3 anos de estudo. Esses 2 grupos somados totalizam quase 11 milhões de pessoas com deficiência, com nenhuma ou baixíssima escolaridade. Situação que evidencia a grande dificuldade das crianças e adolescentes permanecerem na escola.

Em relação às crianças e adolescentes da área rural será necessário um esforço redobrado para fazer face a potencialização da exclusão escolar e atender cerca de meio milhão de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, com deficiência, que vivem no meio rural, inseridos na realidade das classes multisseriadas, da ausência de transporte e ajudas assistivas agravada pelo despreparo do professor e pela dificuldade de acesso aos meios de comunicação e informação e aos instrumentos e centros de formação e capacitação de professores.

 Os indicadores educacionais entre adolescentes com deficiência, entre 12 e 17 anos, demonstram que estes têm 4 vezes mais possibilidade de estar fora da escola do que os adolescentes sem nenhuma deficiência e que a taxa de analfabetismo das crianças e adolescentes, com alguma deficiência , em idade de cursar o ensino fundamental é o dobro das crianças sem deficiência . Quando analisa-se a iniqüidade entre os diversos tipos de deficiência percebe-se que as crianças e adolescentes com deficiência mental e deficiência física e motora são os mais penalizados, pois representam o maior percentual que não consegue ter seu  acesso e permanência na escola garantidos.

Que razoes explicam tamanha desigualdade no direito ao acesso a educação de crianças e adolescentes com deficiência?

·       A ausência de investimentos públicos e de uma estratégia central sistêmica e coordenada de enfretamento, envolvendo a preparação dos professores, a disponibilidade de recursos pedagógicos e assistivos e a flexibilização curricular para fazer face a situação de enorme exclusão escolar das pessoas com deficiência na rede regular de ensino de primeiro e segundo grau.

O  CONTEXTO

-         Com a Constituição de 1988, inicia-se uma nova formulação teórica sobre os direitos educacionais das crianças e adolescentes com deficiência. O paradigma muda de Integração social, para inclusão social. De acordo com o novo paradigma da Inclusão Educacional, a diversidade identificada entre as  características humanas, abrangidas pelos aspectos de raça, idade, gênero, de conformação física, sensorial e intelectual deve ser reconhecida e incorporada aos fundamentos de um modelo social mais justo e igualitário, capaz de acolher as diferenças para a realização de um País para todos.  A partir desta mudança,  crianças e adolescentes com deficiência têm direito a educação, assegurado pela rede publica regular de ensino, como todas as outras. O princípio da Inclusão Educacional empresta novo significado aos direitos das pessoas com deficiência e redimensiona a importância das responsabilidades publicas governamentais, em relação ao direito a educação pública, de qualidade para todos, incluindo as crianças e adolescentes com deficiência. E, para que esta mudança ocorresse foi fundamental a influencia e a pressão exercida por entidades da sociedade civil de defesa de direitos das pessoas com deficiência e direitos humanos, dos organismos e fóruns internacionais de apoio e ajuda mútua para o efetivo compromisso de assegurar legalmente a equiparação de oportunidades educacionais.

-         Os indicadores de exclusão educacional, principalmente, entre crianças e adolescentes com deficiência mental revelam que a adoção de um modelo educacional, baseado numa rede privada filantrópica, de natureza economicamente frágil e incerta, mantida por doações e convênios irregulares e  da existência de salas especiais e segregadas nas escolas públicas da rede regular de ensino são insuficientes para prover oportunidades igualitárias educacionais para crianças e adolescentes com déficit intelectual.

Ao enfocar um dos aspectos centrais sobre a Diversidade a Prof Luiza Bairros escreveu um alerta sobre o perigo de considerar a diversidade apenas nas aparências e reflete sobre a ausência da diversidade em nosso mundo: “Falta diversidade na escola, o que distorce a experiência histórica dos diferentes grupos sociais e raciais: falta diversidade nas imagens mais freqüentemente veiculadas pelos meios de comunicação; falta diversidade nas posições sociais mais valorizadas; falta diversidade na composição das ONGs, das organizações internacionais e dos órgãos públicos – que teoricamente deveriam existir para promover a diversidade que eles mesmos negam na sua prática cotidiana; falta diversidade nos objetivos das políticas públicas, até porque a diversidade também é peça rara entre os que formulam e implementam essas políticas”.

Para mudar esta situação no âmbito da educação propomos:

Requisitos de Acessibilidade a crianças e adolescentes com deficiência para assegurar acesso e permanência na escola.

Destinação dos recursos públicos dos fundos legais dirigidos ao financiamento e desenvolvimento da Educação Básica, para o desenvolvimento de programa de Inclusão “Escola para Todos, tendo em vista a necessidade de prover condições objetivas para a redução da exclusão escolar e das desigualdades entre as crianças e adolescentes social e economicamente mais desfavorecidas.

Para assegurar as crianças e adolescentes com deficiência física, sensorial e mental condição básica de acesso ao ensino é necessário:

§       Questionamento do conceito de competência como avaliador e como aspecto diretamente relacionado à permanência na escola;

§       Desenvolver e utilizar a modalidade do ensino a distancia para a formação de professores

§       Instituir e direcionar verbas públicas e apoios internacionais para fundo de pesquisa, tendo em vista conhecer e avaliar com mais profundidade as condições de Inclusão de crianças com deficiência e social e economicamente mais frágeis.

§       Deverá emanar diretriz central para que escolas, com o apoio das entidades de defesa, dos órgãos técnicos e científicos, sigam os requisitos de acessibilidade, tomando-se como referência a Norma Brasileira NBR 9050, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que trata da Acessibilidade de Pessoas Portadoras de Deficiências a Edificações, Espaço, Mobiliário e Equipamentos Urbanos.

No que diz respeito aos requisitos de acessibilidade relacionados aos alunos com deficiência física motora, todas as escolas deverão observar e cumprir:

§      eliminação de barreiras arquitetônicas para circulação do estudante, permitindo acesso aos espaços de uso coletivo;

§      reserva de vagas em estacionamentos nas proximidades das unidades de serviço;

§      construção de rampas com corrimãos ou colocação de elevadores, facilitando a circulação de cadeira de rodas;

§      adaptação de portas e banheiros com espaço suficiente para permitir o acesso de cadeira de rodas;

§      colocação de barras de apoio nas paredes dos banheiros;

§      instalação de lavabos, bebedouros e telefones públicos em altura acessível aos usuários de cadeira de rodas;

No caso dos alunos com deficiência visual, os requisitos mínimos de acesso e permanência deverão observar e cumprir:

§      sala de apoio equipada como máquina de datilografia braile, impressora braile acoplada ao computador, sistema de síntese de voz e leitores de tela, gravador e fotocopiadora que amplie textos, software de ampliação de tela, equipamento para ampliação de textos para atendimento a aluno com visão subnormal, lupas, réguas de leitura, scanner acoplado a computador;

§      adoção de um plano de aquisição gradual de acervo bibliográfico em braile e de fitas sonoras para uso didático;

§      Sites e Comunicação digital acessíveis

Quanto a alunos com deficiência auditiva os requisitos de acessibilidade deverão:

§      propiciar a mediação e a inclusão do intérprete de língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) / língua portuguesa durante o percurso escolar

§      adotar flexibilidade no processo de ensino e de avaliação valorizando o conteúdo semântico;

§      de estimular o aprendizado da língua portuguesa, principalmente na modalidade escrita

Proporcionar aos professores acesso a alternativas de formação continuada que contemple as especificidades das crianças e adolescentes pobres, negras, com deficiência e indígenas, por meio:

  Do acesso a cursos e a literaturas e informações específicas sobre o universo da diversidade e as condições de vida das crianças e adolescentes mais penalizados pela desigualdade de oportunidades.

            Da criação de estimulo financeiro aos professores para a formação continuada tendo em vista valorizar e fortalecer os professores para realização efetiva da Inclusão de crianças e adolescentes socialmente mais vulneráveis.

Dados estatísticos

Distribuição por tipo de deficiência no Brasil:Dados retirados da tabela 2.1.3 – População residente, por tipo de deficiência, segundo as grandes regiões.

Fonte IBGE

Grandes Regiões e unidades da Federação

População Total

Pelo menos uma das deficiências enumeradas

Deficiência Mental permanente

Tetraplegia ou hemiplegia permanente

Falta de membro ou parte dele

Brasil

169 872 859

24 600 255

2 844 936

937 462

478 59

Grandes Regiões e unidades da Federação

População Total

Incapaz, com alguma ou grande dificuldade permanente de enxergar.

Incapaz, com alguma ou grande dificuldade permanente de ouvir.

Incapaz, com alguma ou grande dificuldade permanente de caminhar.

Nenhuma destas deficiências

Brasil

169 872 859

16 644 840

5 735 099

7 939 784

143 726 948

Pelo menos um tipo de deficiência

Pessoas c/ def.

(B)

Percentual

(B)/(A)

BRASIL

169 799 170

24 537 984

14,5%

Norte

12 900 704

2 077 120

16,1%

Pará

6 192 307

1 100 202

17,8%

Nordeste

47 741 711

7 973 282

16,7%

Bahia

13 070 250

2 001 059

15,3%

Sudeste

72 412 411

9 350 975

12,9%

São Paulo

37 032 403

4 138 934

11,2%

Sul

25 107 616

3 538 781

14,1%

Rio Grande do Sul

10 187 798

1 542 325

15,1%

Centro Oeste

11 636 728

1 597 826

13,7%

Goiás

5 003 228

666 266

13,3%

Dados retirados da tabela 1.4.2 – População residente, por tipo de deficiência, situação do domicílio, o sexo e os grupos de idade - Brasil

População residente

Total (A)

Pelo menos

uma deficiência (B)

% (B)/(A)

Total

169 872 856

24 600 256

14,5%

Homens

83 602 317

11 420 544

13,7%

Mulheres

86 270 539

13 179 712

15,3%

Dados retirados da tabela 1.4.3 – População residente, por tipo de deficiência, segundo a cor ou raça – Brasil

População residente

Total (A)

Pelo menos

uma deficiência (B)

% (B)/(A)

Total

169 872 856

24 600 256

14,5%

Branca

91 298 042

12 579 886

13,8%

Preta

10 554 336

1 844 303

17,5%

Amarela

761 583

106 064

13,9%

Parda

65 318 092

9 805 273

15,0%

Indígena

734 127

125 255

17,0%

Sem declaração

1 206 675

139 475

11,6%

Dados retirados da tabela 1.4.1 – População residente, por tipo de deficiência, segundo a situação do domicílio e os grupos de idade – Brasil. segundo o sexo e os grupos de anos de estudo –Brasil

Total (A)

Pelo menos

uma deficiência(B)

% (B)/(A)

Total

População Urbana

137 925 238

19 754 445

14,3%

5 a 9 anos

12 787 346

565 525

4,4%

10 a 14 anos

13 509 943

860 994

6,4%

15 a 17 anos

8 511 442

550 801

6,5%

População Rural

31 947 618

4 845 812

15,1%

5 a 9 anos

3 788 326

142 239

3,7%

10 a 14 anos

3843 740

222 044

5,8%

15 a 17 anos

2 215 597

138 471

6,2%

Dados retirados da tabela 1.4.6 – Pessoas de 15 anos ou mais de idade, portadoras ou não de deficiência, segundo o sexo e os grupos de anos de estudo –Brasil

 

Pessoas de 15 anos ou mais de idade portadoras

ou não de deficiência

Total (A)

Pelo menos

uma deficiência(B)

18,8%

% (B)/(A)

Total

119 556 675

41,3%

22 438 924

Sem instrução e menos de 1 ano

13 904 626

26,9%

5 735 758

1 a 3 anos

19 316 634

16,7%

5 207 569

4 a 7 anos

37 570 144

10,7%

6 281 238

8 a 10 anos

20 789 737

10,0%

2 221 696

11 a 14 anos

20 957 396

10,2%

2 097 197

15 anos ou mais

5 911 119

26,4%

603 218

Não determinados

1 107 018

292 24%

Fonte IBGE ( Instituto brasileiro de geografia e estatística), Censo demográfico 2000.

Existem 280 mil alunos matriculados com deficiência em escolas especiais de 1 a 8 serie.

300 mil alunos estão em classe regulares no ensino fundamental.

Apenas 9 mil alunos chegaram ao ensino médio

Há 18.200 escolas publicas para alunos com deficiência no país.

Somente 120 títulos didáticos tem versão em Braille ( dados MEC)

Na comparação da equidade, considerando o intervalo de 0 a 3 anos de estudo, entre os sexos de pessoas com deficiência , as mulheres são maioria, somando 54% do total desse grupo. As estatísticas no Brasil mostram também que a situação de deficiência atinge mais as regiões Norte e Nordeste. Entre as raças, a incidência de deficiência é maior entre os negros e índios. Em Salvador foram identificadas pelo Censo 2000, aproximadamente, 460 mil pessoas com deficiência.

-------------------------------------------------

Comissão Civil de Acessibilidade de Salvador – COCAS - 29/03/2004

Elaboração e Redação: Regina Atalla – CVI – BA

Islândia Hazard – VIDA Brasil