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ESPIRITUALIDADE E MÍSTICA, CORPOREIDADE E SEXUALIDADE |
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Fr. Nelson Junges Introdução Sabemos que através da história, na tentativa de entender mais a fundo o ser humano e sua relação com o divino, se buscou estudar separadamente a matéria e o espírito. Este processo levou a uma dissociação. Por uma parte, a ciência fazendo o esforço para conhecer todo o complexo físico e psicológico do ser humano, com a luta para garantir a melhor sobrevivência e superação das doenças e desequilíbrios de convivência. E por outra parte, a tentativa de desvendar os ainda mais profundos mistérios da relação com o divino, da espiritualidade, também presente como necessidade inerente a cada ser humano. È a profunda busca do ser humano por conhecer a si mesmo, o mundo que o rodeia e, sobretudo, para achar um sentido para sua vida. Neste processo os confrontos foram muito fortes e profundos, fazendo com que as teorias se distanciassem e avançassem separadamente. Na vida prática, porém, é um mesmo ser que busca o conhecimento e o equilíbrio material e espiritual. Assim estamos conscientes de que a realidade pessoal, a Espiritualidade e a Mística não começam e terminam em cada pessoa, mas produzem uma transformação que começa no interior de cada um e se estende para a comunidade, sociedade, nas relações com o corpo, a natureza e o universo. É nesta perspectiva que propomos a presente reflexão. Um ensaio que pretende convidar-nos a reunificação de nós mesmos e a redescobrir que o equilíbrio está em crescermos numa unidade de desenvolvimento entre matéria – corpo e sexualidade e espírito-espiritualidade e mística, com todos os condicionantes psicológicos e contextuais que nos envolvem. Corporeidade – O corpo é o nosso modo de ser no mundo, é um espaço único e insubstituível que nos foi dado. O corpo nos confere uma identidade com nome e referências de lugar e tempo. É no corpo e com o corpo que crescemos como um todo. Por isso o corpo é inteligência, é vontade livre, é capacidade de amar. E é este corpo que revela nossas energias, emoções e capacidades e é nele que sentimos as limitações. No corpo pulsa a vida. Este pulsar de vida é a sexualidade, que concentra a raiz de nossos impulsos e desejos. A sexualidade nos leva a buscar o conhecimento de nós mesmos, o sentido para a vida, o cultivo de amizades e de relações, e a buscar a felicidade como desejo ultimo de cada um. A sexualidade se expressa em todo nosso ser e agir como mulher e como homem, e nos impulsa a viver prazerosamente a vida. Dela decorre a sensualidade que é a vivencia da sexualidade através dos sentidos e do prazer. A sensualidade faz sentir os prazeres sensuais como comer bem, cheirar deliciosos perfumes, acariciar outros corpos e nosso próprio corpo, escutar música, admirar o belo, sensibilizar-nos com a simplicidade das crianças..., "sentir a partir do coração",... perceber o divino presente na criação. Da sensualidade nasce o cavalheirismo, a delicadeza e a cordialidade. A sensualidade é também uma das vias de manipulação de nossos interesses. Pelo fato de despertar os sentidos, a atenção e a atração cria necessidades tanto de dentro para fora como de fora para dentro. Neste sentido a cultura egocêntrica atual, fez perder a compreensão da sexualidade como um todo, reduzindo-a aos sentidos e ao prazer físico que se transformou em algo egoísta e dominador no social e em imoralidade no religioso; ao mesmo tempo esta redução fez perder o senso de realidade e de beleza diversificada, impondo modelos de corpo ideal, com base no consumismo e na manipulação, o que fez aumentar a discriminação e o preconceito com tantos que portam uma diferença mais perceptível em seu corpo. Precisamos recuperar este entendimento de sexualidade, pois toda e qualquer atividade ou intervenção, seja no material ou no espiritual, pressupõe uma aceitação e convivência sadia com o corpo e a sexualidade. Mesmo o mergulho no profundamente espiritual exige estar em paz consigo, acolher as próprias limitações e ter um razoável equilíbrio das emoções para que possa se constituir em uma experiência libertadora. Pela falta de um conceito razoável de si mesmo e de uma serenidade na relação afetiva e sexual, podemos encontrar e mergulhar, muitas vezes, em pseudo-espiritualidades, como fuga para o espiritual, sem conseguir elaborar uma experiência libertadora e nem encontrar no espiritual uma motivação para a comunhão e a soma com as pessoas e a natureza. Toda Espiritualidade e Mística passam pelo corpo. Sexualidade e transcendência se pertencem mutuamente, um não está completo sem o outro. Assim percebemos que para desenvolver uma sadia Espiritualidade e chegar a transmitir uma Mística é indispensável a harmonia entre corpo, mente e espírito, requer aceitação de nós mesmos como somos e com as diferenças e as limitações que tivermos, recuperando assim a capacidade de reconhecer e admirar a harmonia e a beleza existentes num corpo ou numa mente com diferenças mais significativas. Espiritualidade – Consiste em identificar em nós esta sede de infinito e de querer mais, de ir além do que está aí. Vem acompanhado do desejo de apropriação em que somos constantemente provocados a nos adonar de coisas e pessoas. O desejo de posse está na relação com as coisas, pessoas, instituições e religiões, mas não mata a sede e a necessidade de espiritualidade, pois faz parte da natureza humana e da felicidade buscar o divino. Os muitos caminhos espirituais revelam também que não há limite para este universo e que através da história muitos e diversos caminhos foram e estão sendo percorridos. É neste sentido que o aprofundar uma Espiritualidade e Mística requer alguma identificação ou ao menos referência ao divino, não apenas a partir de conceitos externos de religiões ou crendices, mas, sobretudo como busca de resposta às questões fundamentais da nossa existência, tais como: para que vivemos?, ...qual nosso lugar dentro da criação? ...ou o que podemos esperar para além desta vida? A espiritualidade é fonte de esperanças e de dinamismo capaz de estimular, em cada pessoa, forças extraordinárias que serão raiz de energias tanto para viver o cotidiano como para superar barreiras que pareciam intransponíveis, sendo, por isso, aspecto importante e fundamental na busca equilibrada da transformação. A Espiritualidade e a Mística não são algo desencarnado, mas um aprofundar e um dar sentido para vida no seu todo, por pessoas que vivem em um contexto social e econômico concreto, por isso é a busca concreta de resposta para as questões mais profundas do humano, da sua relação concreta com a natureza, seus semelhantes e o divino feitos por pessoas que vivem, são um corpo, em uma determinada realidade e cultura. A espiritualidade e a mística serão libertadores se estiverem enraizados, pés no chão. Para nós esta realidade é em primeiro lugar a pessoa portadora de doença crônica ou deficiência e o contexto de sofrimentos situados no conjunto do nosso mundo, considerando causas e conseqüências provenientes da cultura elaborada em nosso contexto social e religioso. Através da História: Espiritualidade – É considerada espiritualidade aquilo que as pessoas, costumam viver no dia a dia da vida, ou seja, através da mortificação do corpo e da sexualidade viver a retidão de vida, o sentido da solidariedade, o cultivo do espaço sagrado do espírito, tanto nas suas religiões e igrejas como no modo de pensar, agir e interpretar a vida. A espiritualidade é uma das fontes privilegiadas de inspiração do novo, de esperança, de elaboração de um sentido pleno e de capacidade de autotranscendência do ser humano. E segundo Dalai-Lama, "Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior." (cf. L. Boff em Espiritualidade, Um Caminho de Transformação, ed. Sextante, Rio – 2001). Através da história houve, em todas as religiões, pessoas consideradas iluminadas que viveram espiritualidades profundas, com real desapego do corpo, das coisas materiais, da fama e do poder, e que se tornaram mestres, santos, etc.. Muitos deles foram, em conseqüência, considerados/as mestres e doutores e fundaram escolas de espiritualidade nas diferentes religiões e com isto muitas vezes as religiões se apropriaram das experiências pessoais para constitui-las em doutrina ou norma, bem como em referência de espiritualidade. Temos, portanto, caminhos de espiritualidade bem consagrados e de valorosos conteúdos doutrinais, bem como, de profundo relacionamento com o divino, acompanhados de uma mística de entrega e de doação capazes de ser caminho de felicidade. O que permanece como desafio é que estas experiências vividas por alguém possam ser usadas como referência para um seguimento, mas não podemos excluir a necessidade de cada um dar a sua própria contribuição e fazer na pratica, no seu próprio contexto e respondendo aos desafios que a vida apresenta em seu momento, sua própria experiência-encontro com Deus. Não pode ser uma imitação cega e desencarnada ou dependente. Assim em todas as religiões temos ótimas lições que podem contribuir num caminho para a comunhão com o transcendente e levar ao encontro de um verdadeiro sentido para a vida. Grande parte destas referencias não integraram o corpo e a sexualidade de forma consciente, ao contrário até o rejeitaram, mas foi no seu corpo e com sua sexualidade não reconhecidos que encontraram forças para toda a sua entrega e opção radical. Mística – É uma decorrência da espiritualidade, ao menos na concepção histórica da palavra, e tem a ver com a relação da pessoa com o divino, com o modo de perceber o divino e de sentir a sua presença dentro do seu contexto cultural. Há, portanto diferenças entre místicos orientais e ocidentais, com influencias culturais e existenciais próprias a cada um e somadas às suas próprias espiritualidades de origem. Até pouco tempo a mística era privilégio de poucos, daqueles que tinham a vontade e a possibilidade de aprofundar-se no religioso e espiritual. Consistia numa certa separação do mundo e superação da materialidade, da corporeidade com tal compenetração no divino que ficasse acima das influencias das coisas para estar centrado totalmente, ou ao menos quanto permite a natureza humana, no divino, mergulhado no mistério que é Deus. Era uma libertação e superação das influencias e dependências em relação ao corpo, às coisas e pessoas para, mesmo no contato com elas, não se desviar da comunhão com o divino. No caminhar da história se ampliaram as concepções do divino e com ela a compreensão da mística como algo parte do modo de ser humano e de suas relações. Teilhard de Chardin, teólogo cristão, por exemplo, desenvolveu e viveu uma mística a partir da percepção de Deus como criador presente em todas as coisas e pessoas. A relação com este Deus convida a uma atitude amorosa e a uma sintonia que faz o místico sentir-se parte deste todo, em perfeita comunhão entre matéria e espírito. A mística de Teilhard se tornou completa, terna e amorosa a partir de sua relação com o feminino. Toda sua teoria elaborada através do mergulhar espiritual em Deus e sua criação encontrou forma e sentido ao aprofundar o sentimento amoroso que acontece na relação apaixonada entre uma mulher e um homem. Estar apaixonado por alguém e as vibrações que isso desencadeia, é um reflexo real da paixão pelo divino. Sua tentativa mística foi de entrar no sentido profundo da Encarnação de Deus Filho que ao encarnar-se uniu o divino ao humano e o humano ao divino. O corporal e o espiritual são uma e única realidade, parte do mesmo todo. A mística é o reflexo desta compreensão do divino e do humano e vai se revelar no modo de ser, de entender e de se relacionar. A Mística pode ser comparada ao sal na comida, não se vê, mas se sente, e quando não está se sente ainda mais; ou como o fermento na massa, não se vê, mas é ele que faz a massa crescer dando textura e forma ao pão; ou como o ar que respiramos que não se vê, mas sem ele não sobrevivemos; ou mesmo como o amor que não se vê, mas que ao existir se transmite pela delicadeza, pela ternura, pelo perdão, pela disponibilidade, pelo serviço, pelo carinho,etc.... A Espiritualidade e a Mística não se vêem, mas transparecem nas atitudes, se revelam no modo de ser, de agir e de reagir diante das coisas e dos fatos. Revelam-se numa postura ética e no cuidado com o semelhante, com a natureza e toda criação. E num sentido amplo se entende que há uma mística e um modo próprio de ser em cada conjuntura, tanto de espiritualidade como de política ou de profição. Por exemplo, há uma mística do exercício do poder que será diferente se concebido como mando ou como serviço; há uma mística no exercício parlamentar dos políticos que será diferenciado entre exercê-lo como proveito próprio ou como representatividade popular no governo... Assim haverá diferenças entre a mística de uma espiritualidade mais vertical e uma mais horizontal... Busca de caminho Pelo processo histórico percebemos que se fez do Corpo-Sexualidade e da espiritualidade duas fontes distintas. A primeira como dependendo do ser humano e a segunda como estando além dele dependente do divino, chegou-se a considerá-los quase antagônicos, como se um prejudicasse o outro. Com isso se deturparam ambas as concepções. Se considerarmos nosso ser gente (corpo-sexualidade) como parte da criação e com sua fonte em Deus, não podemos dissociar o corporal e o espiritual, elas são uma mesma realidade, parte de um mesmo todo. Mais ainda, se aceitamos a encarnação de Jesus Cristo como Deus feito gente, ou Deus-corpo-sexualidade, aceitamos conseqüentemente a divinização da corporeidade, e a mútua participação entre o divino e o humano. Assim somos seres espirituais em nosso todo, corpo mente e espírito e somos sexualidade em nosso todo, convidados a valorizar esta energia vital em nosso modo de falar, de sorrir, de sentir, de nos tocar, de nos comprometer etc... E com esta compreensão de nós mesmos adquirimos uma mística na qual reconhecemos estar fazendo a Deus o que fazemos com as pessoas e a criação, ou seja, quanto mais intima e visceral for nossa relação com as pessoas, mais digna, respeitosa e intima será nossa relação com Deus e vice versa. Recuperaremos a pureza de nossas relações, superando em nós o desejo de posse e nos tornado gratuitos, fazendo de nossos encontros momentos de ternura, justiça e cordialidade e dando sadia vazão a nossa sensualidade, expressão de nossa sexualidade. A partir do reconhecimento desta integralidade e comunhão entre o divino e o humano, nossas intimidades serão a celebração do amor que faz feliz e não mais egoísmo e auto satisfação, onde nos tornamos objeto um para o outro. Estaremos indo alem do moralismo que nos faz ver o mal em tudo e considerar "feio" o que é parte do projeto de Deus e tão presente e desejado por cada pessoa. Descobriremos um prazer mais completo e duradouro, pois a sensação será de liberdade partilhada, com sabor de vitória e será um apelo para mais entrega e serviço a outrem. Não queremos com isso criar nova diferenciação entre o eu e o outro, mas reconhecer que quando cada um de nós ama a outrem está amando a si mesmo e amando a Deus que é a fonte deste amor. É o caminho da recuperação da nossa identidade como humano-divinos. O prazer será tão mais profundo e duradouro quanto mais gratuito e partilhado. A relação sexual será mais do que satisfação, será respeito dialogal de corpos e mentes que construirão juntos os seus ápices e farão do orgasmo uma experiência de profunda comunhão, de espiritualidade, desta comunhão que é Deus, muito mais realizadora, convite para mais partilha, com capacidade de perdão e de compreensão profunda. Estar apaixonado por alguém ou por Deus é a melhor sensação do mundo, torna tudo fácil, faz o jugo ser suave e o peso leve, e enche a vida de perspectivas, é expressão do divino, do infinito, com desejo de ser eterno. Por isso somos convidados a viver apaixonadamente. Ao recuperar esta relação próxima, esta pertença entre corpo-sexualidade e o divino-espiritualidade, certamente vamos recuperar a sensibilidade, a humildade e o cuidado que revelam uma mística em nossas relações. E seremos capazes de indignar-nos com as injustiças e de mobilizar-nos para recuperar um espaço digno para cada pessoa e, sobretudo, seremos companheiros de caminhada com quem estava só e esquecido. Espiritualidade e Mística na Frater Nosso movimento não surgiu por decreto ou por decorrência de uma doutrina ou religião, mas surgiu como FRUTO DE UMA PRATICA concreta de Pe. François. A pratica de ser, de estar, de ter cuidado com o próximo. Pe. François, também doente crônico optou por servir, por amar a Deus colocando sua vida a serviço das pessoas que precisassem e quisessem sua colaboração. Desenvolveu um modo de ser humilde, e na gratuidade se colocou como defensor e socorro a quem precisasse, motivado pelo espírito do Evangelho. Este modo de ser e de agir se constituiu em um caminho de espiritualidade e transmitiu uma mística contagiante, envolvente. Não foi autoridade que impusesse as coisas, foi um irmão preocupado com os irmãos. Neste espírito convidou outros a serem também irmãos, irmãs, a darem sentido a sua vida pelo serviço aos demais. Ele foi ao encontro e depois convidou a outros a irem ao encontro. Esta foi sua inspiração simples e despretensiosa. A semelhança de Deus que se fez gente para vir participar de nossa humanidade por puro amor, Pe. François optou por partilhar, de forma respeitosa, a vida com quem sofre. Desta inspiração e ação concreta nasceu um movimento que desde o início tem claro que sua força não está em leis, mas na sua pratica. Pratica de visitas e contatos pessoais, de dialogo respeitoso, de escuta, de relações sinceras e transparentes. Pratica que tomou forma no trabalho em equipe, no acolhimento das diferenças, na partilha da vida dentro das possibilidades e jeitos de cada um. Na evolução e no andar deste movimento permanece o convite para caracterizar-nos por um máximo de espírito e um mínimo de estruturas. Por isso nosso movimento é dinâmico e aberto. Para manter este espírito nós nos convidamos e nos motivamos a cultivar a Espiritualidade e a Mística da Frater. Qual é a nossa Espiritualidade? Partimos do principio de estar fundamentado no espírito do Evangelho. Isto significa ter como referencia a espiritualidade de Jesus Cristo. Em Jesus a espiritualidade parte do saber-se Filho de Deus, em ter uma relação filial com o divino, o transcendente. Em sentir e experimentar a relação com Deus como Pai-Mãe, numa intimidade confiante, numa certeza de ser reconhecido e aceito tal qual é, e que se traduzia no seu modo de orar "Pai que queres que eu faça?", a Vontade do Pai como a orientação de sua vida. Na pratica isto se traduziu nas relações, no modo de ser de Jesus. Valendo-nos do escrito por L. Boff, no livro citado acima, Jesus "Assume tudo o que é radicalmente humano. Chora expressando a tristeza com a morte do amigo Lázaro. Entretém amizade com duas mulheres, Marta e Maria, e com Maria Madalena, chamada de sua companheira, por mais escandaloso que isto fosse naquele tempo. Enche-se de ira sagrada quando vê o espaço sagrado sendo transformado em mercado. Mas também se enche de indizível ternura abraçando as crianças... Um Deus que encontramos dentro de nós e de nosso cotidiano, sem precisar busca-lo aqui e ali, mas busca-lo na nossa interioridade". Uma espiritualidade que "vive da gratuidade e da disponibilidade, .. vive da honradez em face da realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente desta realidade. Quebra a relação de posse das coisas para estabelecer uma relação de comunhão com elas. Mais do que usar, contempla." Uma espiritualidade de perdão, de respeito à liberdade e de, com um senso de justiça, ir ao encontro e de reconhecer, na valorização e na devolução da auto estima, àqueles que estavam a margem da vida, da dignidade e da sociedade de seu tempo. Nossa espiritualidade se identifica no amor, na amizade, na partilha da vida, no querer o bem do outro e no reconhecimento que temos, e que Pe. François viveu na sua pratica, i.é, que o amor a Deus passa pelo amor aos irmãos. Como membros da Frater cada um de nós é responsável pelo cultivo e pela vivencia concreta desta espiritualidade e deverá procurar a maneira melhor de, junto com seu grupo conhece-la, aprofunda-la e vive-la. Qual é nossa Mística? A partir desta espiritualidade a nossa mística será caracterizada por atitudes de ser IRMÃO e AMIGO. Que assim como se degusta o sabor de algo, quem nos veja sinta em nosso modo de ser e de atuar que existe em nosso agir algo mais que o simples ato. Assim como os primeiros cristãos eram reconhecidos pelo seu modo de ser um com o outro, nós também sejamos reconhecidos na maneira amorosa, gratuita de nos relacionarmos. Isto implica em cultivarmos a sensibilidade, o desejo de servir e de ver o outro bem, em superar todo julgamento e condenação para, na confiança, nos colocarmos a caminho com os que encontramos. É verdade que isto também supõe que nos trabalhemos pessoalmente no sentido de nos aceitarmos como somos, de nos amarmos como somos, superando preconceitos e a comparação com os "modelitos" que nos são impostos para, com os pés no chão, fazermos a nossa parte na transformação global que se faz necessária. Inclui também vencer esta necessidade de fazer comparações, pois ninguém é melhor que ninguém, todos somos diferentes com capacidades e limitações, e o que realmente importa é que cada um faça a sua parte e do seu jeito na busca deste objetivo comum de construir a fraternidade (vida de irmãos). Não serão leis ou normas que irão dar ou tirar esta dimensão mística que vem do mais profundo da inspiração de Pe. François. Contribuirá também para a vivencia desta nossa mística se fizermos um sincero esforço de sair do negativismo e de aprender a olhar para nós mesmos e para quem encontrarmos, buscando captar e valorizar o que há de positivo em cada um/a. Não nos ajuda em nada ficar preso ao menos bom, não traz alegria e muito menos ajuda a avançar. Jesus não veio apontar o pecado, veio convidar a levantar e a seguir em frente, "Levanta-te e anda" este é o seu convite e é o nosso lema. Sabemos que somos capazes de amar, por isso amemos sem medo de ser feliz.
Bibliografia Consultada: BOFF, Leonardo (2001). Espiritualidade – Um Caminho de Transformação. Rio de Janeiro – Ed. Sextante MOSER, Antonio (2001). O Enigma da Esfinge – A Sexualidade. Petrópolis- RJ. Editora Vozes GRÜN, Anselm (2002) Mística e Eros. Curitiba – Lyra Editorial FOUCAULT, Michel (2003)História da Sexualidade -1: A Vontade de Saber(15ª ed.). Rio de Janeiro – Graal - (2003) História da sexualidade -2: O Uso dos Prazeres(10ª Ed.) Rio de Janeiro – Graal - (2002) História da Sexualidade -3: O Cuidado de Si (7ª Ed) Rio de Janeiro - Graal
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