SUBSÍDIOS PARA VISITAS A DEFICIENTES OU DOENTES

 

POR QUE AS VISITAS?

Porque a experiência vivida desde a inspiração de nosso fundador, Pe. Henri François, é a de que, sem profundos e sinceros contatos pessoais, não chegaremos a criar verdadeiros laços de amizade; e, sem uma verdadeira amizade, é impossível construir autênticas relações de irmãos entre as pessoas que, de fato, queiram viver em Fraternidade.

É nas visitas que poderemos nos conhecer, falar de nossas coisas pessoais, de nossos medos, de nossas dores e angústias, bem como de nossos planos de vida, esperanças e sonhos.

É nas visitas que poderemos conhecer o ambiente onde a vida acontece; conhecer a família e suas relações; enfim, conhecer a realidade onde a pessoa visitada vive.

É nas visitas que iniciamos o processo de formação em Fraternidade.

É nas visitas que encontramos a pessoa e, através dela, o Cristo e o Deus da Vida.

É nas visitas que podemos iniciar o processo de construção de verdadeiros laços de amizade.

QUEM É CONVIDADO A FAZER VISITAS?

TODOS. Doentes e/ou deficientes, ou não. Todos somos convidados a partilhar a vida, doando um pouco de nós mesmos, de nosso tempo e daquilo que estiver ao nosso alcance. Assim demonstraremos a todos, e particularmente aos mais excluídos, que eles são importantes e lhes possibilitamos, através do nosso amor, sentir o amor de Deus.

Para que as visitas em Fraternidade sejam efetivas, é fundamental que as pessoas portadoras de deficiência sejam protagonistas, isto é, que elas mesmas tomem a frente de ir em busca de seus companheiros de realidade, demonstrando que a vida não termina com uma doença ou uma limitação, mas que esta é uma realidade em torno da qual devemos unir nossas forças para juntos descobrirmos caminhos e jeitos de viver e de ser felizes.

A importância de o próprio portador de doença ou deficiência ser o agente está em seu testemunho concreto e na possibilidade que ele dá à pessoa visitada de espelhar-se em alguém que vive essa mesma realidade.

Essa recomendação não exclui que alguém não portador de doença ou deficiência faça visitas. Deve, porém, ter consciência de que terá que atuar com redobrado amor, sem dolorismos nem paternalismos, isto é, sem qualquer postura assistencialista que revele aquele ar de superioridade ou de dó – tão desprezíveis quanto desprezadores. Somente despojado dessas atitudes negativas e com muito amor poderá, com verdadeira confiança e sinceridade, despertar a auto-estima e a valorização em quem é visitado.

Dentro desse espírito, é sempre importante que tanto nós quanto os familiares do doente e/ou portador de deficiência motivemos outras pessoas a também visitarem a quem estamos visitando, isso para que a pessoa visitada se sinta amada por mais alguém e, assim, evite possíveis envolvimentos afetivos não desejados ou confusões de sentimentos.

CARACTERÍSTICAS A SEREM CULTIVADAS POR QUEM SE PROPÕE A FAZER VISITAS

- Muita gratuidade: nunca dar às visitas qualquer conotação de cobrança ou de interesses preestabelecidos e, muito menos, torná-las fonte de fofocas.

- Capacidade de escuta e de compreensão: querer amar a quem se visita.

- Acreditar nas capacidades do outro, isto é, confiar e reconhecer no outro alguém que, além de ser capaz de dar sua contribuição, quer ser feliz. Portanto, é preciso ver mais as qualidades das pessoas do que suas limitações.

- Reconhecer no outro um irmão; e, para o cristão, ver no outro o próprio Cristo.

- Aceitar suas próprias limitações, cultivando a humildade e a. simplicidade

- Priorizar o diálogo e o respeito em todas as circunstâncias, acolhendo o diferente como complemento, e não como contrário.

- Cultivar o espírito ecumênico.

- Ter perseverança, respeitando o ritmo no processo de formação, amadurecimento e crescimento do outro.

- Ser alegre e transmitir otimismo.

- Estar atento para valorizar as pequenas coisas da pessoa visitada e do seu dia a dia.

- Procurar não impor as suas "verdades".

- Evitar dar soluções, mas refletir "COM", na busca...

- Saber perdoar e não guardar rancores.

 

COMO FAZER AS VISITAS?

· De preferência, e sempre que possível, realizar a visita em dupla: um visitante portador de deficiência acompanhado de um colaborador. Enquanto a pessoa portadora de deficiência faz contato com o portador visitado, o colaborador procura contato com os familiares.

· Quando a pessoa visitada não é conhecida, as primeiras visitas devem ser breves, prolongando-se na medida em que se perceba maior interesse e abertura. Entretanto, mesmo sendo breves, nunca devem ser apressadas. Se alguém estiver com muita pressa, será melhor deixar a visita para outra ocasião. Por outro lado, se o(a) visitante não for recebido(a), evitar comentários negativos, dispondo-se a retomar a iniciativa em outra ocasião. Se, no local da recusa, vive uma pessoa portadora de deficiência ou doença, nós insistiremos para brindá-la com nossa amizade, ocasionando-lhe espaço para integração.

· Fazer a visita com simplicidade, alegria e cordialidade; com o objetivo claro de querer ser irmão/irmã daquele que vamos encontrar; de querer colaborar para que esse próximo seja pessoa em pé – e não alguém prostrado – e que consiga colocar seus talentos a serviço dos irmãos.

· Ser discreto e digno de confiança. Nunca fazer, de qualquer aspecto das visitas, motivo de fofoca ou de comentários indignos.(Saber guardar confidências).

· Tratar a pessoa visitada como adulto, sem preconceitos e com realismo, sem dolorismos nem pietismos.

· Não intoxicar a pessoa visitada com convites e propostas para os quais não está preparada ou não manifeste interesse.

· Evitar interrogatórios, sejam eles sobre a doença ou a deficiência, sejam sobre outros aspectos, para que a pessoa visitada não se sinta invadida como pessoa ou como família. Na medida em que a relação cresce, tudo fluirá a seu momento, com espontaneidade.

· Dar espaço para que a pessoa visitada possa falar, descarregar suas alegrias, esperanças, sonhos, tensões, queixas, mágoas; ouvi-la com atenção e respeito, procurando compreender as dimensões de seus sonhos e problemas, pois, para ela, o seu problema é certamente o maior do mundo; por isso, não serão nossas teorias que irão mudar essa situação; mas talvez nosso amor ajude.

· Incentivar a pessoa visitada a viver intensamente; dar-lhe força... De um modo natural, deixar que ela veja e sinta, em quem a visita, o amor pela vida, otimismo, confiança em si e na superação de suas barreiras, etc.

· Nas visitas, não discuta religião. Saiba ouvir, dar sua opinião, mas não discuta. Valorize a experiência da pessoa visitada e manifeste sua disposição de caminhar junto com ela, mesmo nas diferenças, que consideramos complementares e não contraditórias. Cada crença ou filosofia de vida tem sua razão de ser e faz parte da consciência pessoal de cada um, merecendo, por isso, o reconhecimento. Assim, uma visita nunca será igual à outra, pois estará sempre em sintonia com a realidade da pessoa visitada.

· Querer ser instrumento de paz. E, no momento oportuno, propor a busca de uma causa maior, tal como a de se unir a um grupo, de se integrar e de construir em conjunto.

· No espírito ecumênico, a Fraternidade, não só está aberta a todos, mas quer ir ao encontro de todos e, no respeito às convicções de cada um, unir-se na luta pela vida.

· A visita é urna questão de amor. Quem ama de verdade toma a iniciativa, vai visitando e partilhando. Por isso quem visita vai procurar entrar no ritmo da pessoa visitada, buscando crescer junto com ela e respeitando o seu processo, sem querer impor a sua opinião. Se o(a) visitante agir com serenidade e confiança, deixará sempre um gostinho de "quero mais"...

É nesse espírito que somos convidados a realizar nossas visitas e nossos contatos pessoais.

A FAMÍLIA DIANTE DA DOENÇA E/OU DEFICIÊNCIA:

Diante da doença e/ou deficiência, as famílias reagem das mais diferentes maneiras. Nessa reação, intervêm fatores de grande influência, tais como: tipo de doença/deficiência, duração, gravidade, idade da pessoa doente e/ou deficiente, personalidade dos familiares, experiências anteriores, ambientes sócio-culturais, religiosos, econômicos, relacionamento com as estruturas sanitárias, papel que o doente exerce na família, seu relacionamento afetivo, etc.

As reações negativas mais comuns entre os familiares são:

· Ânsia e Angústia – Geralmente os familiares tornam-se super protetores. Colocam o enfermo e/ou portador de deficiência numa redoma, tornando-o totalmente dependente. Esse fator pode causar regressão na pessoa com enfermidade e/ou deficiência, regressão esta causada pela família que, às vezes, vê nisso vantagem, pois é uma forma de controle.

· Negação – Os familiares negam a doença e/ou deficiência porque vêem nela uma ameaça à estabilidade da família. Às vezes, simplesmente isolam a pessoa atingida e a desconsideram, o que certamente a afetará muito. Por isso fica impossível superar seus problemas.

· Agressividade – É manifestada especialmente contra médicos, enfermeiras e, às vezes, contra a própria pessoa com doença ou deficiência. Exemplo: "Tá vendo no que deu?...Procurou e achou..."

· Isolamento do contexto social e até das pessoas mais amigas – É mais comum em casos crônicos, em situações de deficiências graves, ou em situações em que a doença tende a se agravar.

· Pessimismo, depressão e desespero – Às vezes, de maneira desproporcional, os familiares se deixam levar pela fantasia ao sentirem o confronto com a morte, vendo esta como um "monstro" que vem roubar seu ente querido. Pode até levar ao suicídio.

· Desconfiança – É uma agressividade mascarada. Os familiares levam a pessoa com doença e/ou deficiência de um lado para outro, dizendo que estão em busca de solução, mas não acreditam em ninguém. Embora tenham esperança em tudo, são inconstantes: trocam de religião, de tratamento com a maior facilidade, deixando se levar por crendices de toda ordem (por medo das cobranças da sociedade ou por descargo de consciência).

· Acomodação – Considerando o fato "vontade de Deus" – ainda influenciados por conceitos do Antigo Testamento, que considera a doença e/ou deficiência um castigo – os familiares acabam se acomodando, sendo dominados por um sentimento de vítima. ("Deus quis assim.") . Não raras vezes, com seu sentimento de culpa, se sentem na obrigação de ‘agüentar’: "Esta é a cruz que Deus nos deu." Assim, ficam com mais dó de si do que da pessoa com doença e/ou deficiência.

· Doença e/ou deficiência como vantagem – Os familiares passam a querer a doença e/ou deficiência e fazem dela uma forma de chamar atenção, ou seja, tornam-se centro das atenções. Isso gera o intimismo (fechar-se em si mesmo), de modo que ficam incapazes de reagir.

Entretanto, numa situação de doença e/ou deficiência, não ocorrem apenas reações negativas. Há, também, casos em que os familiares (ou alguns deles) reagem positivamente.

As reações positivas mais comuns entre os familiares são:

· Confiança realista – São os mais fortes que percebem a situação real da doença e/ou deficiência. Sem ignorar os lados negativos, vêem também todas as possibilidades de tratamento. Reagem de forma natural, encarando a situação e fazendo o possível para que a pessoa com doença e/ou deficiência desenvolva suas capacidades da melhor forma possível. Geralmente esses "fortes" são ótimos colaboradores.

· Avaliação e despertar de valores – A doença e/ou deficiência pode provocar uma avaliação ou re-avaliação dos relacionamentos, valores, qualidades, erros, acertos, enfim, uma (re)avaliação da vida, despertando novas atitudes, reconhecimentos, respeito e valorização. Em outras palavras, a doença e/ou deficiência pode provocar uma mudança de comportamento para melhor.

PALAVRA FINAL

EVANGELIZAR É AJUDAR A PESSOA: EM PRIMEIRO LUGAR, através de nossa amizade, PARA SENTIR-SE ALGUÉM IMPORTANTE. E, EM SEGUNDO LUGAR, através de nosso amor, PARA, ASSIM também SE SENTIR AMADA POR DEUS.

                                                                       Fr.Nelson Junges